• Pearl Jam, The Killers e Red Hot Chili Peppers são atrações confirmadas
  • Um resumo da cobertura Rock in Rio em 20 fotos lindas e 20 fatos marcantes
  • Saiba tudo sobre os shows de Foo Fighters e QOTSA no Brasil
  • Leia a resenha de "Desaturating Seven", novo disco do Primus
  • O guitarrista Kennedy Brock falou sobre o novo disco e shows no Brasil
Mostrando postagens com marcador Discos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Discos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Diversificado e coeso, 'Ømni' é o melhor disco do Angra dos últimos 12 anos

Angra chega ao nono disco da carreira com o ótimo "Ømni"
ANGRA
"Ømni"
EarMusic; 2018
Por Lucas Scaliza


A banda brasileira Angra, uma das principais referências em metal melódico do mundo e que sempre foi exemplo de como misturar heavy metal e influências regionais (no caso, os diversos ritmos brasileiros) passou os últimos dez anos perdida em clichês ao mesmo tempo em que tentava agregar novas influências, como o progressivo. O resultado foi uma sequência de álbuns irregulares e que tentavam emular muito mais o power metal europeu do que a identidade que a banda vinha construindo e reafirmando até a renovação com 'Rebirth' (2001).

Em 'Ømni', a banda enfim encontrou seu caminho e demonstra estar alinhada com o power metal de matriz europeia, lançando mãos de alguns clichês do gênero – como mostram as duas faixas introdutórias, “Light Of Transcendence” e “Travellers of Time”. Mas ainda assim, o Angra consegue trazer uma diversidade suficiente para fazer de 'Omni' um álbum mais conciso e que aproveita cada canção para mostrar algo diferente.

Black Widow’s Web” é uma das melhores faixas do álbum, com Sandy (sim, a irmã do Júnior, filha do Durval de Lima, ou Xororó) cantando nas passagens de piano em contraste com Alissa White-Gluz, do Arch Enemy, que faz um gutural monstro. Faixa bem composta, que aproveita muito bem a dinâmica e cada convidado. “Insania” tem um refrão infalível e dá um belo espaço para o baixo de Felipe Andreoli brilhar na mixagem durante o segundo verso da canção. “Bottom Of My Soul” é mais uma vez Rafael Bittencourt tomando conta dos vocais. A canção poderia ser um hard rock bem anos 80, mas as orquestrações e a guitarra pesada cheia de distorção que marca cada mudança de acorde dão uma pompa mais metaleira e sinfônica a ela. Uma boa candidata a música que deve ficar ótima em formato acústico.


'Ømni' certamente não é um novo Angel’s Cry (1993) ou Rebirth, mas é o melhor disco da banda em anos e o faz com consciência. Pode não ser o mais original possível e com certeza não tenta ser o mais arriscado da discografia, mas cumpre o papel de trazer um pouco de cada coisa que o Angra fez bem em mais de 25 anos de estrada, com altos e baixos, em momentos em que estavam muito confiantes - como parece ser o caso de Holy Land (1996) até hoje um marco no metal mundial pela coragem e pelo primor na colagem da música brasileira com o metal e Temple Of Shadows (2004), seguramente o disco mais ambicioso da discografia – e quando precisavam de um produto que se adequasse a um certo tipo de público específico: o fã de metal europeu atual, acostumado com certos níveis de fritação guitarreira e bumbos duplos, vocais altíssimos e certo aspecto épico e fantasioso.

A fantasia entra em 'Ømni' pelo viés de suas letras e conceitos. Como a capa do álbum antecipa, com todos os elementos esotéricos e científicos se misturando a uma figura humana, trata-se de um disco conceitual que parte de 2046, quando uma tecnologia permite quebrar o tecido do tempo e conectar as consciências humanas (e todos os álbuns do Angra) de várias épocas diferentes, levando os humanos a um estágio mais evoluído.

Todo o processo de composição foi feito em Campos do Jordão, numa casa da família de Bittencourt, único representante da formação original do Angra. Depois, cada música foi gravada na Suécia com o produtor Jens Bogren, que já trabalhou com Moonspell, Sepultura, Opeth, Haken e diversas outras bandas do metal e do progressivo. Ou seja: o sueco manja dos paranauês. Difícil saber até onde a concisão estética de 'Ømni' foi trabalho dele ou consciência coletiva de Bittencourt e do resto da banda (visto que todos os integrantes estão creditados como compositores). No entanto, como Secret Garden (2015) também foi produzido por Bogren, fica a sadia impressão de que o Angra evoluiu como grupo em sua nova formação. Não musicalmente, pois mesmo em álbuns fracos a técnica nunca foi alvo de contestação, mas em termos de consciência de como um bom disco deve funcionar. Já que 'Ømni' tira o Angra do limbo e o coloca novamente em uma posição de destaque entre os ouvintes.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Fall Out Boy abandona pop punk e faz disco na medida para fãs de Imagine Dragons

Fall Out Boy chega ao sétimo álbum de estúdio, "Mania"
FALL OUT BOY
"Mania"
Universal Music; 2018
Por Lucas Scaliza


Em 2018, o emo/pop punk do Fall Out Boy se fundiu de vez com as tendências mais manjadas da EDM. De certa forma, podemos dizer então que Mania é o disco mais Imagine Dragons que eles já fizeram na carreira. 

Dá até para argumentar que eles estão inovando no rock, afinal, as guitarras com distorção estão ali, quase sempre presentes, assim como a bateria bem firme e cheia de pompa de Andy Hurley. Contudo, cada vez que você ouve o álbum, e caso esteja familiarizado com David Guetta e alguns dos artistas com que ele trabalhou, verá que as canções de 'Mania' têm muito mais a ver com um cenário eletropop do que com o rock, ou com o emo de antigamente - ouça The Last Of The Real Ones”, que parece ser mais uma criação de Guetta do que uma canção típica do Fall Out Boy. 

Sendo assim, podemos dizer que eles não estão exatamente inovando no rock, mas sobrevivendo como banda de rock apostando no que acham que uma nova geração quer ouvir. 

Hold Me Tight Or Don’t”, desde seu primeiro compasso, é uma música que você se surpreende em ver no disco do FOB, porque deveria estar no álbum da Anitta. Não é exagero. “Wilson” parece um rip off de M.I.A. e sua “Paper Planes”. Daí, em “Church”, eles voltam a ser aquela banda de espetáculo dirigido pelo Michael Bay, com direito a coral que soa como uma multidão em uma catedral. Ouvintes atentos perceberão, no entanto, que a linha de baixo superlegal de Pete Wentz é o destaque da faixa.


Com tantos tiros para todos os lados, “Heaven’s Gate” chega com uma carinha de soul tão desavergonhada que você até consegue abrir um sorriso. É nesse momento de 'Mania' que você entende que a banda está se divertindo, e propõe que você faça o mesmo. A ideia é não se levar a sério, curtir o caminho e não a consistência do trabalho musical no final das contas. 

Champion” tem um riff de guitarra e um ritmo para o vocal de Patrick Stump que Eminem deveria ficar de olho. Já que o rapper agora faz mais pop do que hip hop de verdade, essa faixa do FOB viraria um bom sample em seu próximo trabalho. Aliás, Sia é uma das compositoras de “Champion”. E falando em sample, a base da primeira parte de “Sunshine Riptide” (com Burna Boy) é um derivado de produção eletrônica dispensável, principalmente quando após o primeiro refrão a banda faz uma levada muito boa, mostrando novamente a habilidade de Wentz para o baixo e a versatilidade do guitarrista Joe Trohman.

No final, “Bishop Knife Trick” fecha o disco na mesma trilha que “Stay Frosty Milk Tea” abriu: soando como uma banda que cria clima, que mistura timbres modernos com tendências do eletropop e mantém uma dignidade. O miolo de 'Mania' é tão diversificado que você dá o braço a torcer e precisa dizer que o Fall Out Boy é realmente versátil, e que conseguiu diversificar a discografia com uma boa quantidade de faixas com potencial para singles. No entanto, é uma pena que a maior parte delas seja construída em cima de modismos e de uma noção de gosto para lá de discutível.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Robert Plant segue inabalável em 'Carry Fire' e justifica caminho anti-Zeppelin

Aos 69 anos, Plant não se acomoda e mostra ter muito ainda a oferecer 
Por Bruno Eduardo

Robert Plant tem uma longa e variada história na música. Mas seu tempo gasto como vocalista do Led Zeppelin fez dele um ícone de rock inquestionável. Desde o fim do Zeppelin, Plant passou sua carreira solo desafiando esse rótulo e explorando diferentes sons e estilos. Foi uma longa jornada tentando se desvencilhar de um caminho provável, que dava sempre de volta ao passado. O tamanho de seu desafio pode ser medido por uma reputação sustentada numa das maiores bandas de rock que já pisaram neste planeta. Trocar as engrenagens e se separar de um gênero que o manteve no estrelato por mais de uma década não deve ter sido uma das tarefas mais fáceis. 

Aos 69 anos de idade, Robert Plant não quer mais saber de hinos prontos para estádios, e na mesma proporção que nega convites para uma suposta volta do Led Zeppelin, o cantor segue disseminando sua arte com novas criações, refletindo todos lugares onde esteve escondido esses anos, e ruminando sobre o que viu e sentiu por onde passou. Como músico de renome que é, Plant possui acesso a recursos e especialistas musicais incríveis, e reflete isso de forma brilhante em seu décimo-primeiro disco de estúdio, 'Carry Fire'. Acompanhado da ótima Sensational Space Shifters, ele quebra o molde da música rock, ou mesmo da música folk rock, usando um conjunto diversificado de instrumentos e incorporando alguns acentos eletrônicos sempre refogados por sua habilidade vocal.

Embora seu novo disco aparentemente siga a mesma fórmula de 'Lullaby And The Ceaseless Roar' (2014), Robert Plant mostra que sua música está sempre em mudança profunda, experimentando e mantendo uma arte baseada na sua própria ciência. 'Carry Fire' tem as mesmas pitadas do Oriente Médio que Plant adora, trazidas por instrumentos da região, além de alguns tons jazzísticos e uma vibração genericamente terrena e descontraída. Mas ainda assim pode-se ser chamado de um grande álbum de rock.


Da mesma forma que se afasta do rock trovejante do Led Zeppelin, ele mistura o antigo com o novo de forma peculiar e homenageia o passado com o devido cuidado de quem não quer se tornar caricato. Repare no título da canção que abre o disco. "The May Queen" é uma clara referência ao hino "Stairway To Heaven". E o que dizer da versão grandiosa para "Bluebirds Over the Mountain" que foi originalmente composto por Ersel Hickey, e que também ganhou roupagens de gente classuda como Ritchie Valens e The Beach Boys. E aqui, ainda conta com a contribuição de Chrissie Hynde do The Pretenders, tornando-se ainda mais especial e nostálgica.

No decorrer de todo o trabalho, podemos encontrar inserções sonoras que remetem sempre a alguma origem marcante, mas que parecem ser levemente quebradas pela forma que Plant conduz as canções. Você nota um clima bluesy na maior parte do trabalho, mas também linhas de baixo nervoso e acentos percussivos angustiantes. Uma das melhores é "Bones of Saints", uma canção típica do rock proposto por Plant, com tom esfumaçado em meio a sintonizações estrondosas de ritmo, melodia e vozes combinadas. 
O álbum também inclui alguns comentários políticos, especificamente nas faixas "Carving Up the World Again ... A Wall and Not a Fencee "New World" - que aludem questões datadas, como nacionalismo, e outras mais atuais ao falar de refugiados e imigração.


'Carry Fire' é moderno, expressivo e musicalmente brilhante. E não deve ser visto apenas como mais uma adição perfeita ao catálogo da Plant. Esse disco justifica cada negativa por uma nova reunião com o Led Zeppelin. Afinal, Plant quer continuar sendo essencial nos tempos atuais da mesma forma que foi nos anos sessenta e setenta. E mesmo que não tenha mais os hinos para as multidões, ele dá exemplo de como criar e recriar sua arte de forma autêntica e honesta. E continua sendo inabalável - tanto na posição de artista contemporâneo quanto na imagem de lenda do rock.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pavilhão 9 mantém DNA no ótimo "Antes Durante Depois", seu primeiro disco em 11 anos

Após longo hiato, Pavilhão 9 está de volta com novo disco de inéditas
PAVILHÃO 9
"Antes Durante Depois"
Deckdisc; 2017
Por Ricardo Alfredo Flavio


Onze anos se passaram desde o último disco, 'Público Alvo', e cinco anos após a última reunião (para o show no Lollapalooza/2012), eis que os camaradas aliados do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, Rhossi e Doze, decidem se unir novamente e, com time totalmente novo, lançam outra pedrada no mercado, intitulada: 'Antes Durante Depois'!

Para uma banda que nunca escondeu a queda para, literalmente, meter o dedo na ferida, e, com a humildade de não querer mudar a cabeça de ninguém, mas, abrir os olhos de todos para a realidade, nesses onze anos de hiato, acumulou-se material farto para ser trabalhado e cuspido sem dó na cara dos acomodados. As críticas sociais e políticas estão todas aí, tinindo.

Desde que saiu o primeiro single, “Tudo Por Dinheiro”, lançado nas plataformas digitais e com clipe no YouTube em julho passado, e ouvindo todas as outras nove faixas que compõe o álbum, de duas coisas têm-se certeza, a contundência das letras, presentes desde o primeiro álbum, Primeiro Ato (1992) e o peso sonoro característico dos clássicos discos Cadeia Nacional (1997), Se Deus Vier, Que Venha Armado (1998) e Reação (2000) estão inalterados. Mesmice? Não! DNA próprio, bem definido e bem feito.


Para esse renascimento, Rhossi e Doze convocaram um time bom, composto por Heitor Gomes no baixo (ex-Charlie Brown Jr. e CPM22), Rafael Bombeck na guitarra, Leco Canali (ex-Tolerância Zero) na bateria e o DJ MF, que não poderia faltar, na mais importante banda do rap-metal-core brasileira.

Da marcação do baixo, a guitarra pesada e o scratch que abrem o disco com “Antes Durante Depois”, de letra que me parece autobiográfica, passando por cacetadas como o já citado primeiro single “Tudo Por Dinheiro”, ou as ótimas “Acredita Não Duvida” ou “Os Guerreiros” até o encerramento suave com “Na Malandragem”, temos dez faixas curtas e certeiras, sem enrolação, sem lenga-lenga, é pau puro, o melhor do gangsta rap tupiniquim em pleno 2017!

Te cuida Rage Against de Machine! Pavilhão 9 na área! Com promessa de turnê em todo o país e, esperamos, que a volta não seja efêmera.

sábado, 21 de outubro de 2017

Do punk ao metal, Propaghandi completa metamorfose sonora em 'Victory Lap'

Na estrada desde 1986, Propagandhi é hoje um dos principais nomes da Epitaph
PROPAGANDHI
"Victory Lap"
Epitaph Records; 2017
Por Luciano Cirne


Há 40 anos o punk rock está  aí, visceral e enérgico dando aos jovens uma válvula de escape para que possam se expressar, o que nestes tempos malucos que vivemos - onde neonazistas fazem passeatas pelos EUA e deputados aqui no Brasil acham que proibir artistas de se apresentarem no país por questões religiosas, convenhamos - faz-se mais necessário que nunca. Ao mesmo tempo, porém, é inegável que o gênero encontra-se estagnado e, salvo raríssimas exceções como o Bad Religion e o Ratos de Porão, a maioria parece ter perdido o poder de fogo tão necessário para manter-se relevante. A este seleto grupo podemos incluir também os canadenses do Propagandhi.

Na ativa desde 1986, eles sempre foram uma das bandas mais engajadas de toda a cena punk / hardcore e nunca fugiram de uma polêmica. Essa integridade causou diversos problemas ao longo dos anos. Um exemplo foi quando Fat Mike, vocalista do NOFX, cortou relações com o grupo, expulsando-os do seu selo (Fat Wreck). O motivo, foi porque Fat se irritou com o fato de o Propagandhi não querer participar de uma coletânea contra George Bush organizada pela gravadora. A justificativa da recusa foi que dentre as ONGs que davam apoio a esse lançamento, haviam várias cujo maior financiador era o magnata George Soros. Mas se essa postura do grupo rendia cortes de relações, por outro lado isso sempre colocou eles um passo adiante dos demais. Durante toda sua história, o Propagandhi primou pela honestidade e pelas letras carregadas de mensagens pro-veganismo, pro-igualdade, anti-fascistas e anti-capitalistas. E  não seria diferente agora em seu sétimo trabalho, intitulado "Victory Lap".

A bem da verdade talvez não seja muito correto rotulá-los como punk ou hardcore no que tange à sonoridade, haja vista que desde o seu quarto disco ('Potemkin City Limits') eles vêm cada vez mais abraçando uma pegada thrash metal. Em 'Victory Lap' podemos dizer que a metamorfose se completa. É um álbum quase que essencialemente de metal, como atestam faixas enérgicas e velozes como "Failed Imagineer", "Comply / Resist", "Letters to a Young Anus", "In Flagrante Delicto" e "When Your Fears Collide". Mas há espaço também para algumas surpresas - como a levada quase indie de "Lower Order (A Good Laugh)" e a estranha e diferente de tudo que já gravaram até entçao: "Adventures in Zoochosis" (onde Chris Hannah narra em primeira em primeira pessoa a angústia que um animal sente preso no zoológico).


Também merecem destaque "Tartuffle", por ser a que mais se assemelha aos primeiros trabalhos e a nervosa faixa-título, que é seríssima candidata a música do ano, deixando claro que se a sonoridade é thrash, as letras não deixaram de ser puro punk rock (acho que só mesmo o Dead Kennedys ou o Bad Religion conseguiriam escrever algo tão ácido e eloquente como "quando as chamas tiverem engolido a casa dos bravos / a debandada para a fronteira terá sido em vão / Rostos se envergonharam e empalideceram / Como a parede que não poderia ser dimensionada e os tornaria grandes"). E claro, seria uma grande injustiça não ressaltar o quanto todos os integrantes do Propagandhi têm uma técnica incomum para uma banda oriunda do punk (são muito mais virtuosos inclusive que inúmeros conjuntos que começaram no metal): Jord Samolesky é um excelente e subestimado baterista e a guitarrista Sulynn Hago, que faz sua estreia aqui, é um MONSTRO, simples assim. Me arrisco a dizer sem medo de errar que é a melhor guitarrista do sexo feminino na atualidade.

Ainda que não seja seu melhor trabalho (na minha opinião, o prêmio vai para 'Today's Empires, Tomorrow's Ashes' de 2000), eles mantém o alto nível que caracteriza sua discografia e não decepcionam pois além da inegável perícia nos instrumentos, eles têm alma, coisa cada vez mais rara nos dias de hoje. Chris Hannah entona cada palavra como se estivesse exorcizando seus demônios e isso transparece ao longo da audição. Mesmo que você não entenda absolutamente nada de inglês, consegue sentir que ele canta com o coração, o que torna todo o discurso ainda mais genuíno. Eles ainda mantém acesa aquela chama idealista juvenil de salvar o mundo, porém não sozinhos; esperam que vocês captem suas mensagens e embarquem nessa, sem contudo esquecer da diversão e claro, pogando um bocado pelo caminho. Grande trabalho de uma grande banda que com certeza merece mais atenção!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Em EP de quatro faixas, Mastodon mostra a criatividade que ficou de fora dos últimos álbuns

Mastodon lança seu segundo trabalho no ano: "Cold Dark Place"
MASTODON
"Cold Dark Place"
Reprise Records; 2017
Por Lucas Scaliza


Tivesse o Mastodon seguido a sonoridade presente em Cold Dark Place quando criou Emperor Of Sand (2017), teria recebido os louros não de fazer mais um disco de stoner metal competente, mas de ter inovado um pouco mais no estilo e na discografia. Para quem não sabe, 'Emperor' é a criação coletiva do grupo, seguindo o estilo de rock divertido e metal cheio de riffs que vem tomando conta da banda. Já o EP 'Cold Dark Place' é fruto da mente psicodélica do guitarrista Brent Hinds, que quase lançou as músicas como um projeto solo, antes de toda a banda abraçar a causa.

Logo de cara eles se lançam em músicas emocionais, como é o caso de “North Side Star”, uma das melhores faixas que a banda já fez, partindo de uma balada atmosférica para um rock progressivo bem temperado. “Blue Walsh” é um belo exemplo de stoner rock equilibrado, que sabe se guardar para liberar o poder fogo na hora certa. E ainda que “Toe to Toe” tenha o vocal poderoso do baixista Troy Sanders dando o tom, ela modula seu humor para se tornar acessível. E “Cold Dark Place” a balada, ou o mais próximo disso que o Mastodon consegue chegar, em 3/4 em que Hinds mostra intimidade e que o lugar escuro e frio do título está dentro dele mesmo, um homem que olha para si e para sua situação e nota o quanto pode ser penoso permanecer vivo.

Três das faixas são sobras de Once More ‘Round The Sun (2014) e “Toe to Toe” acabou fora de 'Emperor Of Sand'. É surpreendente como tão boas faixas não chegaram aos álbuns. Talvez a banda tenha concluído que não se ajustavam ao resto do material. O caso é que 'Cold Dark Place' é o sopro de novidade que poderia deixar qualquer um desses dois álbuns – sobretudo o último – ainda mais diverso e satisfatório.


A mixagem chama a atenção mais uma vez. Diferente da massa de guitarras pesadas que inundou a maior parte dos últimos álbuns, o EP é rico em nuances, acompanhando a criatividade das quatro faixas, o sentimento que cada uma busca e sem loudness war. Dessa vez temos arranjos mais criativos e menos metaleiros da parte de Hinds e de Bill Kelliher. Inclusive é possível notar uma textura viajante, mas um tanto bluegrass no instrumento de Hinds. Trata-se de uma steel guitar Sho-Bud de 1954. Combinada ao lado mais stoner e hard rock do Mastodon, essa novidade faz uma verdadeira mágica.

'Cold Dark Place' tem apenas 21 minutos, mas é inteiro-recompensador. Pode ser apenas um EP, mas assim como diversos outros EPs lançados este ano (como o 'Harmony Of Difference', de Kamasi Washington) mostra que a objetividade de um trabalho mais curto pode ser bem mais recompensadora do que a ambição de um álbum completo, mas não tão perfeitinho.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

R.E.M + King Crimson + Sleater-Kinney: supergrupo Filthy Friends lança um dos melhores discos do ano

Filthy Friends traz Peter Buck, Corin tucker e Bill Rieflin em sua formação
FILTHY FRIENDS
"Invitation"
KRS; 2017
Por Luciano Cirne


O rock este ano está se caracterizando por um fenômeno no mínimo pitoresco: Já repararam em quantas resenhas de CDs envolvendo supergrupos tivemos até agora aqui? Primeiro comentamos sobre o Crystal Fairy, depois o Dead Cross e agora a bola da vez é o Filthy Friends, que há muito já vinha causando um murmurinho na imprensa musical por ter em seu lineup nada mais nada menos que Peter Buck (guitarrista do R.E.M.), Corin Tucker (a bela - ainda que a idade esteja começando a pesar - vocalista e guitarrista do Sleater-Kinney) e Bill Rieflin (baterista do King Crimson), além de a notória figura do underground Kurt Bloch (que além de tocar guitarra no cultuado Fastbacks, já produziu um sem número de álbuns). 

A princípio Corin e Peter uniram-se para fazer covers do David Bowie como uma homenagem póstuma e, posteriormente, para protestar contra a candidatura do Donald Trump, mas como a química entre eles fluiu ainda melhor que o esperado, a criatividade fluiu e surgiu a necessidade de recrutar mais gente para fazer com que esse projeto tomasse forma.

Falando na campanha contra o Trump, é exatamente "Despierta", a canção composta e lançada como single às vésperas da eleição presidencial americana (e cuja letra diz "se segurar ao passado não vai fazer com que ele se repita", o que cai como uma luva aos tempos nebulosos que vivemos onde as pessoas são incapazes de analisar a história e desejam a volta de algo que só existiu em suas cabeças), que abre os trabalhos e que traz uma característica marcante de 'Invitation': Incrível como as músicas têm letras politizadas e com mensagens tão contundentes, mas as melodias são sempre ensolaradas e alegres. Isso fica evidente também na lindíssima "Brother", cuja sonoridade se assemelha e muito aos bons tempos do Pixies e "Come Back Shelley", que parece uma sobra de estúdio do T-Rex.


Além desses óbvios destaques, temos também a lindíssima "Faded Afternoon", que se fosse cantada pelo Michael Stipe seria o típico R.E.M., porém na voz cheia de atitude de Corin Tucker, ganha uma personalidade única; a punk "No Forgotten Son" (a mais furiosa do álbum) e "Any Kind of Crowd", cheia de texturas, é o mais próximo que Corin soa do Sleater-Kinney ao longo dos seus enxutos 38 minutos de duração. Vale também ressaltar como curiosidade que o baixo foi gravado por um cara chamado Krist Novoselic (Nirvana), que também é conhecido por seu engajamento político, mas ele infelizmente pediu as contas logo em seguida... Pena! Se um dia o Filthy Friends vir ao Brasil, na certa seria um atrativo a mais!

Não lembro quando foi a última vez que ouvi um disco e consegui dizer isso, mas vai lá: Corin, Peter e seus comparsas conseguiram e fizeram um álbum simplesmente perfeito do início ao fim, onde cada música parece ter sido milimetricamente trabalhada e cada segundo tem sua razão de ser! Também, com tanta gente tarimbada envolvida, não tinha como dar errado, não é mesmo? 'Invitation' é um trabalho urgente que soa alto astral, onde é nítido que todos estão se divertindo, sem contudo parecer bobo ou alienado e que mesmo sendo relativamente curto é mil vezes mais eloquente que obras com 60 minutos ou discos duplos que, como bem diria o saudoso Renato Russo: "Falam demais por não terem nada a dizer". Uma pérola a ser descoberta e presença assegurada na lista dos melhores do ano!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Inspirado em livro infantil, Primus testa a paciência do ouvinte em 'Desaturating Seven'

Primus erra na mão em "Desaturating Seven", novo disco de inéditas.
PRIMUS
"Desaturating Seven"
ATO Records; 2017
Por Luciano Cirne



Vou começar essa crítica de modo bastante direto e pessoal: Sou fã do Primus e digo com certeza, que quem assim como eu, é baixista ou fascinado pelo baixo também o é: Les Claypool, o cabeça da banda, é reconhecidamente um dos melhores do mundo nesse instrumento. Porém, de uns tempos para cá, é inegável que ele tem andado numa fase de estagnação: seu trabalho anterior onde reinterpretava as canções da trilha sonora de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" já transparecia uma certa falta de criatividade, e, em 'Desaturating Seven', a coisa infelizmente não muda muito de figura.

Totalmente baseado no livro infantil "Rainbow Goblins" do italiano Ul de Rico, onde gnomos malvados vagam pelo mundo roubando as cores dos arco-íris que encontravam (o que diga-se de passagem também não é nenhuma novidade, haja vista que o músico japonês de jazz Masayoshi Takanaka já havia feito um álbum temático usando esse livro como inspiração em 1981), 'Desaturating Seven' tem o mérito de subverter a obra original do escritor italiano e transformar um livro voltado para o público infantil e que à primeira vista parece até mesmo bobo em algo claustrofóbico, bizarro e por vezes perverso (pode-se acusar o Primus de qualquer coisa, menos de não ter ousadia), porém esta é uma das poucas virtudes do álbum, assim como as faixas "The Seven" e "The Scheme", as únicas que poderiam com tranquilidade estar em qualquer álbum clássico da banda (aliás, falando nisso, convém ressaltar que esse é o primeiro disco em 22 anos a ter no lineup a formação clássica, com Larry LaLonde na guitarra e Tim Alexander na bateria); a primeira devido ao seu groove irresistível e "The Scheme" por ser a mais acessível e a única com potencial radiofônico. 

Com boa vontade dá para destacar também a penúltima música "The Storm", por ser a mais pesada e por marcar o triste fim dos Goblins (sem querer liberar spoilers, mas eles morrem no final, tá?), e é só. As quatro canções restantes pouco ou nada acrescentam:"The Valley", que inicia os trabalhos, parece uma sobra pouco inspirada de algum disco do Residents; "The Trek" e "The Dream" testam os limites da paciência por serem longas e arrastadas e "The End" é uma espécie de vinheta de pouco mais de um minuto que serve apenas para, conforme o título explicita, fechar este estranho álbum conceitual.

Já alerto aos marinheiros de primeira viagem: Se você desconhece o Primus, NÃO comece por aqui! Tente antes seus trabalhos mais pesados e acessíveis como 'Sailing the Seas of Cheese' e / ou 'Antipop'. Agora, se assim como eu, você é fã das antigas, recomendo que vá com calma aqui, pois não é um disco de fácil assimilação. Merece crédito por ser desafiador - o que é sempre digno de aplausos, ainda mais nesses tempos em que vivemos onde tudo que faça o povo parar pra pensar é automaticamente rechaçado e condenado ao fracasso; mas infelizmente sua audição nem sempre é uma experiência recompensadora. Tem mais pontos negativos que positivos e, por isso, só o recomendo mesmo aos fãs mais hardcore do Les Claypool. Aos demais, sinceramente, esse disco não fará muita falta.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Em seu primeiro álbum, Prophets Of Rage soa apenas como mais um supergrupo sem muito a dizer

Com base do Rage Against The Machine, Prophets Of Rage estreia no estúdio
PROPHETS OF RAGE
"Prophets Of Rage"
Fantasy Rec; 2017
Por Luciano Cirne


Já viram aquele anúncio xarope do Trivago onde aquele 'famoso garoto propaganda' diz: "Eu estou me repetindo ultimamente, mas sabem o que isso quer dizer?"...Pois bem, eu tive vontade de começar esta crítica do mesmíssimo jeito, porque é inevitável: em praticamente todos os reviews que fiz este ano, comentei álbuns de supergrupos! A bola da vez agora é o badalado Prophets of Rage - embora Tom Morello tenha dito em diversas entrevistas que não deveriam ser rotulados como tal, mas sim como "uma força-tarefa de elite de músicos revolucionários" (mas é assim que irei chamá-lo... desculpa aí, Tom!). Mas voltando ao assunto, o POR causou um rebuliço considerável na cena roqueira desde quando anunciou oficialmente sua formação - e não era pra ser diferente. Afinal, metade dos integrantes são do Rage Against the Machine, uma banda até hoje cultuada e respeitada. Completam o time ainda: Chuck D e o DJ Lord do Public Enemy e B-Real, do Cypress Hill). A expectativa foi enorme, a intenção foi a melhor possível, mas infelizmente na hora do "pega para capar", nem sempre a realidade corresponde às expectativas.

OK, o disco tem alguns momentos maravilhosos. O primeiro single "Unfuck The World" (com sua letra bastante sintomática que diz "tudo mudou, no entanto nada mudou") é bem enérgico e certamente se encaixaria com perfeição num disco do RATM como 'Battle of Los Angeles', assim como "Hail to The Chief" e "Who Owns Who" (talvez a melhor do álbum). "Legalize Me" também é uma agradável surpresa, que soa como um outtake do Audioslave (o que não é nenhuma surpresa, não é mesmo?). Pena que o resto da bolachinha não siga essa mesma pegada e seja de uma mesmice de causar sono.

Muitas das músicas soam praticamente iguais entre si (o que é surpreendentemente decepcionante para um conjunto que tem Tom Morello, um dos guitarristas mais versáteis e criativos de sua geração). Em diversas partes fica difícil até saber onde uma canção termina e outra começa. Até mesmo a faixa que abre os trabalhos, "Radical Eyes", é morna e parece nunca engrenar.


Chuck D também é um problema, pois se por um lado ele é reconhecidamente hábil com as palavras, cantando fica cansativo, uma vez que sua linha vocal não muda praticamente nada ao longo dos cerca de 34 minutos de duração do disquinho, tornando-o monótono às vezes e fazendo-o parecer muito maior do que realmente é. Sem contar que (aposto que os fãs do Rage Against the Machine vão querer me bater por essa, mas vamos lá) não consigo entender com que propósito fizeram uma música tão esquisita como "Strenght in Numbers" (outra canção na qual a entressafra criativa se mostra latente, haja vista que a introdução é quase igual a do hit do RATM "Bulls On Parade"), onde o riff da guitarra do Tom Morello soa idêntico a um monte de galinhas cacarejando! Façam o teste; ouçam essa faixa e tentem não cair na risada! Assim fica difícil levar a sério e se concentrar na mensagem, né?

Entendo que em tempos obscuros como o que vivemos atualmente, bandas como o Prophets of Rage, vociferando verdades sem medo de enfiar o dedo na ferida são absolutamente necessárias. Também concordo com as declarações do Tom Morello, que já andou falando por aí que "Tempos perigosos exigem músicas perigosas"... Mas também acredito que a melodia é um veículo importante para que as mensagens transmitidas se façam captadas, e com um trabalho que na maior parte do tempo é apenas preguiçoso e insosso, toda boa vontade vai para o espaço. 

Se você amigo(a) leitor(a) encará-lo como ele supostamente foi concebido (ou seja, uma conclamação à luta) e enfatizar as letras, certamente vai apreciar melhor e achá-lo mais interessante. Entretanto, se você é apenas um(a) fã de rock querendo diversão pura e simples, com certeza irá se decepcionar. Ouça e tire suas próprias conclusões, mas se quer um conselho de amigo, não vá com muita sede ao pote...

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Em seu nono disco de estúdio, Foo Fighters aposta em convidados especiais e garante bom resultado

Agora sexteto, Foo Fighters chega ao nono disco de estúdio, 'Concrete And Gold'
FOO FIGHTERS
"Concrete And Gold"
RCA; 2017
Por Ricardo Alfredo Flávio


Três anos após o projeto 'Sonic Highways' - que incluiu CD e seriado na HBO, repleto de convidados especiais - e uma ameaça de término da banda, eis que David Grohl e seus asseclas jogam um novo álbum no mercado, o nono de estúdio. Depois de mais de 20 anos de banda, com uma formação estabilizada após um histórico repleto de trocas, turnês por todo o mundo, milhões de discos vendidos, o que fazer para manter o pique e continuar na estrada? Parece que David Grohl decidiu se divertir: em seu caso, compor e gravar, com a participação de um monte de amigos!

O projeto inicial era gravar o álbum ao vivo diante de 20.000 pessoas no anfiteatro do Hollywood Bowl. Mas Grohl mudou de ideia ao saber que PJ Harvey já havia feito o mesmo recentemente. Então, ele trancou a turma dentro de um estúdio e Los Angeles e mudou de produtor. Sai Butch Vig, que tanto fez pelo grunge e entra Greg Kurstin, produtor pop responsável pelo trabalho de artistas como Kate Perry e Adele. Com a ideia de se construir algo como “Motörhead tocando Sgt. Peppers” ou “Slayer gravando Pet Sounds”, nasceu “Concrete and Gold”.

Um dos destaques deste disco são as participações especiais, e aqui temos muitas, a saber: o ídolo pop Justin Timberlake fazendo os backing vocals na boa faixa “Make It Right”; Shawn Stockman, vocalista do Boyz II Men, na faixa título “Concrete and Gold”; Inara George, cantora da banda The Bird and the Bee (banda que também tem o produtor Greg Kurstin) - desfilando seu talento na faixa “Dirty Water”; a cantora Alison Mosshart, do The Kills, que aparece em duas faixas (“La Dee Da” e no single “The Sky Is a Neighborhood”); e o saxofonista Dave Koz, que também aparece em “La Dee Da”. E para fechar com chave de ouro a lista de convidados ilustres, o velho Paul McCartney toca bateria na faixa “Sunday Rain”.


Sobre o álbum, em linhas gerais, e é redundante dizer isso, mas, a melhor definição é que se trata de um disco do Foo Fighters! Pop rock bem feito, que se reconhece com poucos acordes. Como nos oito álbuns anteriores, não existe uma faixa de destaque, todo ele é linear e se deixa ouvir por inteiro.

Abrindo com a faixa-vinheta “T-Shirt”, que começa lenta tem um ápice enérgico e amansa novamente e dá o tom do disco, barulho bem feito, bem misturado com climas que lembram psicodelia dos anos 60. A faixa seguinte, “Run”, vem emendada na primeira, parecendo uma coisa única, aí já entendi o que Grohl quis dizer sobre “Slayer fazendo Pet Sounds”. Make It Right” é a faixa cujo os fãs radicais já torceram o nariz antes mesmo de ouvir, pela participação do ídolo pop Justin Timberlake. Grande bobagem! A canção é ótima! Guitarras lembrando ZZ Top talvez, com um certo suingue hard, candidata a hit.

The Sky is a Neighborhood”, que já havia sido mostrada antes do lançamento do álbum segue a cartilha Foo Fighters, no mesmo esquema Ramones / AC/DC / Motörhead, são vários discos lançados, todos bons, todos com a mesma cara. Em “Dirty Water” temos a faixa mais calminha do disco até aqui, bom para descansar os ouvidos, pelo menos até metade da canção, quando a coisa toma corpo. Happy Ever After (Zero Hour)”, é aquela música para o set acústico que a banda costuma fazer no meio do show, para baixar a adrenalina e acalmar o público, uma bela balada. “Sunday Rain” é um excelente rock, e com Sir Paul McCartney no lugar do excelente baterista Taylor Hawkins, dispensa maiores apresentações.

Resumindo: 'Concrete and Gold' é um grande trabalho de Dave Grohl, Taylor Hawkins, Nate Mendel, Chris Shiflett, Pat Smear e Rami Jaffee, tecladista que acompanha a banda há anos e, pela primeira vez é dado oficialmente como membro do, agora sexteto, Foo Fighters! Agora é esperar pela turnê mundial, que chega ao Brasil em fevereiro, onde a banda se apresenta juntamente com Queens of the Stone Age. Ou seja: É aguardar e ver para crer!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Living Colour pega carona no blues e lança 'Shade', seu melhor disco desde 'Stain', de 1993

Após oito anos sem gravar, Living Colour exibe boa forma em 'Shade'
LIVING COLOUR
"Shade"
Megaforce Records; 2017
Por Bruno Eduardo


A última vez que o Living Color lançou um álbum foi há oito anos. Além disso, 'Shade' foi anunciado em 2013, e, após uma longa espera, ele finalmente está disponível ao mundo. A melhor das novidades é que o álbum traz um conjunto irretocável de canções e oferece a mesma mistura orgânica de blues, funk, hip-hop, hard-rock e metal, que marcou a banda no final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Este é sem dúvidas o melhor trabalho do quarteto desde 'Stain', lançado em 1993 - álbum que marcava o final de uma trilogia digna, que começou em 'Vivid' e chegou no ápice criativo no excepcional 'Time's Up' (1990). 

Assim como em grande parte do disco, o blues também inspira a fortíssima "Freedom of Expression (FOX)", que abre o trabalho e conta com o instrumental conciso da banda. Mesmo que o som do grupo seja firmemente fundamentado no hard rock, alguns elementos musicais díspares se destacam ao longo das treze faixas de 'Shade'. Um grande exemplo dessa mistura sonora é "Come On", que traz efeitos de guitarra baseados na eletrônica e se desloca suavemente entre o funk e o rock. Uma das melhores é "Who's That", uma mistura enérgica de blues, soul e hard - que faz lembrar bastante outro co-irmão do funk o'metal: o excelente Fishbone. A canção traz sax, solos de teclado e Vernon Reid esmerilhando do início ao fim.

Contando com a habilidade de Corey Glover, que alterna punch e falsetes de forma sublime, "Program" é hard rock padrão Living Colour e uma das melhores coisas que a banda já fez. Outra que segue esse mesmo caminho nostálgico e com grande influência política é a versão rap-metal de Notorious B.I.G."Who Shot Ya", que traz o mesmo groove pesado que consagrou o grupo. Já "Pattern in Time" revela a faceta mais pesada do Living Colour e lembra muito a fase de canções mais quebradas do disco 'Stain'. Além de contar com um ótimo repertório musical, 'Shade' também se destaca pela engenharia de estúdio. É certamente o álbum do Living Colour que conta com a maior clareza de produção ouvida nos últimos 20 anos. Com cortesia de Andre Betts, a banda faz com que cada elemento musical brilhe fortemente e impressione o ouvinte em várias passagens.

Mesmo com um time de craques na linha instrumental, um dos grandes trunfos do Living Colour em 'Shade' é a excelente forma de Corey Glover, que permite ao grupo passear entre o blues e o metal com a mesma desenvoltura de seus melhores tempos. Essa 'categoria' da banda fica cravada de forma sublime num cover de Robert Johnson ("Preachin Blues"), que aparece como um blues pesadão, arrastado, com o vozeirão de Glover fazendo valer cada segundo de audição. "Blak Out" é mais uma que ganha força na voz de Glover, e tem no baixo de Doug Wimbish, o carimbo da banda. 

A marca indelével do Living Colour, mantendo sabores e texturas de George Clinton & The Parliament Funkadelic, aparece bem na parte final do álbum ("Inner City Blues"), deixando ainda mais a certeza de que 'Shade' é sem sombra de dúvidas um dos álbuns mais exemplares de rock que você poderá escutar em 2017. Difícil de ser batido.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Álbum de estreia do Dead Cross traz Mike Patton e Dave Lombardo com sangue nos olhos

Dead Cross volta a reunir Mike Patton e Dave Lombardo após 12 anos
DEAD CROSS
"Dead Cross"
Ipecac Recordings; 2017
Por Luciano Cirne


Eu poderia iniciar esse review de diversas formas, mas acho que o modo mais adequado de fazê-lo é traçando um paralelo com o filme "Fragmentado", recentemente exibido nos cinemas. Para quem não sabe, essa obra trata de um rapaz, interpretado por James McCavoy, que tem 23 personalidades distintas, o que cai como uma luva também quando o assunto é Mike Patton e seus inúmeros projetos musicais. Cada novo trabalho que faz tem algo de distinto e nunca soa como mais do mesmo. 

Quando surgiram as primeiras informações na mídia que o carismático vocalista do Faith No More estava unindo forças com lendas vivas como Dave Lombardo (Slayer, Suicidal Tendencies) e o insano baixista Justin Pearson (Locust, Some Girls, Retox), já era de se esperar que seria a personalidade mais hardcore de Patton quem daria as caras desta vez - o que não se esperava era que fosse ser ainda mais barulhento que as expectativas!

Logo nos primeiros acordes da caótica faixa de abertura "Seizure and Desist", a sensação que temos é que uma galera pogando violentamente vai sair de trás das caixas de som e nos atropelar, tamanho é o caos que impera - lembrando bastante bandas como o Dillinger Escape Plan (que por sinal já gravou um EP com Mike). Esse é um momento onde o nível de energia chega no pico, mas não é o único: "Idiopathic" é uma pauleira que remete ao bom tempo do crossover de conjuntos como o D.R.I. e o surpreendente cover de "Bela Lugosi's Dead" do Bauhaus chama a atenção justamente por destoar completamente do resto do álbum, mas mesmo assim não soa deslocada.


O ponto negativo é que justamente por Patton ter se cercado de músicos tão anárquicos e criativos quanto Lombardo e Justin Pearson, era de se esperar que a coisa fugisse um pouco da zona de conforto deles. Como se sabe, Patton entrou aos 45 do segundo tempo em campo (a ideia inicial era que Gabe Serbian, que também fez parte do Locust, fosse o vocalista) e já chegou com tudo praticamente pronto, só colaborando com as letras. Ainda assim, parece que ele e o guitarrista Michael Crane (responsável pela lindeza que são os riffs de porradas como "Obedience School" e a fantasmagórica "Shillelagh") são os responsáveis pelo pouco de original que temos no resultado final. 

Na maior parte do tempo, parece um trabalho até mesmo preguiçoso, onde algumas faixas soam bem parecidas entre si e que não trazem nenhum diferencial ou acrescentam algo aos vastos currículos dos respeitados integrantes da banda (aliás, é consenso que Dave Lombardo é um dos maiores bateristas do mundo, não é?). Mesmo assim, é bom ouvir Mike Patton novamente com sangue nos olhos - lembrando a época em que ainda era um moleque insano que gravava sua própria crise de dor de barriga no primeiro disco do Mr. Bungle.

Mesmo com a já citada falta de criatividade, 'Dead Cross' não é um álbum ruim, MUITO pelo contrário. Só não é também tão genial quanto boa parte da crítica vem apregoando por aí. É apenas um disco furioso e competente no que se propõe. E isso que já está de ótimo tamanho, não acham? Podem cair dentro sem medo!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Com a categoria de sempre, Queens Of The Stone Age prioriza a diversão em "Villains"

QOTSA volta a soar divertido em seu sétimo trabalho de estúdio
QUEENS OF THE STONE AGE
"Villains"
Matador; 2017
Por Lucas Scaliza


O QOTSA é uma banda que fez diversos discos divertidos, mesmo que a utilização dos instrumentos, sobretudo das guitarras, fosse um tantinho insano perto de outras experiências mais quadradas. Acho sim o primeiro disco deles (de 1998) bem consistente, mas se libertaram muito mais em Rated R (2000), Songs For The Deaf (2002), Lullabies To Paralyze (2005), formando uma quadra de discos tão boa quanto os quatro primeiros do Black Sabbath, por exemplo. Ainda hoje me pego ouvindo material desses discos (e de Era Vulgaris) e pensando como investiram em ideias diferentes em termos de rock.

Quando a dançante “The Way You Used To Do” foi lançada, inaugurando Villains, vi diversos fãs assustados com a pegada mais animada e ritmo para requebrar vestindo jaqueta de couro, muitos se perguntando onde estaria aquele tom mais sóbrio que predominava em …Like Clockwork (2013). Percebi então como há fãs novos da banda, criados pelo intervalo entre EV e …LC. 'Villains' talvez não devesse causar tanto espanto, já que a diversão sempre predominou no core do QOTSA – mas eu entendo quem ama o clima sério e apocalíptico do álbum anterior, pois é um álbum grandioso, melhor que Villains, afinal.

O caso é que Villains mantém a consistência e o charme da banda, retomando em uma época sombria um pouco da despretensiosidade de outrora. “Feet Don’t Fail Me Now” é uma das faixas mais instigantes que a banda já gravou, com uma ótima divisão rítmica de guitarras e riffs, entrevendo que a dança aqui do disco deriva ainda um pouco do kautrock que pareceu inspirar a banda em 2007. O primeiro single de fato soa melhor no contexto do disco e, depois de um tempo, você nem liga mais para as palmas na mix acompanhando seus passos. Mas caso você não se renda a alguns passos de twist (do século 21), pode se deixar levar pelo rockabilly de “Head Like a Haunted House”.


  No meio do caminho, percebe que mais importante que as guitarras de Homme, Dean Fertita e Troy Van Leeuwen é o baixo de Michael Shuman. São diversos os momentos em que se pega curtindo as loucuras das seis cordas distorcidas, mas é no embalo do baixo que seu corpo pulsa e sente a harmonia. Talvez seja importante destacar que Mark Ronson – um cara que entende da trinca música-banda-e-balanço-dos-quadris – que já trabalhou com Amy Winehouse e Bruno Mars – está na produção do álbum.

Com apenas nove músicas, Villains não dá espaço para o erro ou repetição de ideias. “Domesticated Animals” é arrastada e centrada nos seus riffs, enquanto “Fortress” flui com naturalidade. “Un-Reborn Again” parece uma faixa comum do QOTSA, mas com as teclas de Fertita à frente, ao invés de guitarras, mas “Hideaway” parece fazer a mesma coisa com ainda mais graça – e em menos tempo. Os riffs de “The Evil Has Landed” faz o Queens Of The Stone Age soar Led Zeppelin como nunca – e se ainda não reparou nos baixos deste disco, repare nesta faixa pelo menos! E o final mais grave com “Villains Of Circumstance” é um dos únicos vislumbres que temos do tom de …Like Clockwork.

Nem tudo precisa ser político para ser bom, relevante e importante. Mas após as críticas do álbum anterior e do atentado terrorista em Paris durante o show do Eagles Of Death Metal, era irresistível pensar que os vilões do título seriam uma referência ou metáfora à política dos EUA e do mundo. Segundo Homme, não é. Mesmo assim, 'Villains' é um álbum muito bom e com charme próprio. Não supera a maioria dos trabalhos que a banda já apresentou no passado, mas se mantém num patamar de respeito, flexibilizando seu som mais um pouco e nem por isso deixando de soar torta ou século 21.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Elder lança "Reflections Of A Floating World", um dos melhores discos de stoner rock do ano

Elder segue se consolidando como um dos grandes nomes do stoner mundial
ELDER
"Reflections Of A Floating World"
Armageddon Label; 2017
Por Lucas Scaliza


Deem logo uma coroa aos músicos do Elder. A banda americana de stoner metal conseguiu superar o ótimo resultado que obtiveram em Lore (2015) e chegam muito perto do nível de clássico com o álbum duplo Reflections Of A Floating World.

Com músicas bastante longas (de oito a 13 minutos!), conseguem fazer com que cada uma seja seu próprio universo de riffs e pegada instrumental, fazendo do álbum uma galáxia inteira. Não é brincadeira. “Sanctuary”, que abre o álbum, já faz o fã do estilo sorrir com um riff incrível. Depois que baixo e guitarra com distorção poluem tudo então, é só correr para o abraço.

Dessa vez há algo de mais místicos no som feito pelo trio. Algo mais pinkfloydiano, se você preferir, e dá pra dizer que até tem passagens mais claramente progressivas (como “The Failing Veil” e “Blind” deixam bastante claro). Eles não usam sintetizadores como o Samsara Blues Experiment e com certeza fogem da abordagem mais direta do Mothership. As passagens mais etéreas são feitas aproveitando dedilhados de guitarra, a exploração de efeitos de pedal e um teclado que aparece aqui e ali, nunca roubando a cena. E sempre carregam o som com a energia necessária para manterem-se instigantes como sempre.

Como já era de se esperar, o disco é paulada atrás de paulada, riff atrás de riff e solos animalescos que parecem brotar naturalmente de dentro da massa de overdrive dos instrumentos de corda. Até mesmo a jam instrumental “Sonntag”, a faixa mais calma, é deliciosa em sua condução rítmica e temperada com acid rock, desembocando finalmente na psicodélica e intensa “Thousand Hands”.

A dinâmica continua sendo uma das armas mais interessantes que o Elder tira da algibeira. Quando você acha que não dá para ter mais pressão no som, eles conseguem fazer tudo soar ainda mais épico ou mastodôntico (como certas passagens em “Staving Off Truth”).

O trio é formado pelos habilidosos Nicholas DiSalvo (vocal, guitarra e teclado), Jack Donovan (baixo) e Matt Couto (bateria). Dessa vez, no entanto, contaram com contribuições de Michael Samos (pedal steel, que dá o tom pinkfloydiano do trabalho) e Michael Risberg em uma segunda guitarra, que é chave para conseguirem elevar a dinâmica aos níveis épicos pelos quais Reflections Of A Floating World merece ser reconhecido.

As faixas são compostas de tantas partes boas que é necessário ouvir diversas vezes para começar a colocar os pedaços de música em ordem dentro da cabeça, aprendendo a organizar esse universo todo. Mas a primeira ouvida é impactante. Quem já conhece a banda de Boston sentirá que está diante de algo realmente grande neste quarto álbum. E quem não a conhece deverá cair a seus pés e perguntar: “por onde foi que vocês andaram esses anos todos que não estavam na minha playlist?”

'Lore' é para sempre um dos discos mais consistentes de stoner metal que já ouvi. 'Reflections' é o stoner metal que expande seu próprio mundo, mostrando que o Elder olha para a frente e não entrega nem um minuto de música que fique abaixo do ótimo.