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  • Um resumo da cobertura Rock in Rio em 20 fotos lindas e 20 fatos marcantes
  • Saiba tudo sobre os shows de Foo Fighters e QOTSA no Brasil
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  • O guitarrista Kennedy Brock falou sobre o novo disco e shows no Brasil
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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

No Maracanã, Queens Of The Stone Age mostra renovação em show dançante e igualmente indispensável

Josh Homme botou a galera pra dançar no show do QOTSA [Foto: Marcos Hermes]
Por Bruno Eduardo

O Queens Of The Stone Age não é uma banda tão requisitada a ponto de garantir estádios lotados, mas é quase uma unanimidade entre o público amante do rock. O grupo liderado por Josh Homme representa para muitos o que seria a última fagulha genuína do gênero no mainstream e segue lançando discos regularmente para a alegria de seus fãs. Tanto que eles chegam no Brasil para divulgar seu contestado, porém bom trabalho, 'Villains' (lançado no ano passado). E decidiram apostar em um número renovado e não saudosista, o que mostra a vontade do grupo em permanecer fresca entre os novos e antigos fãs.

As novas canções não só funcionaram bem ao vivo, como modificaram o show da banda de uma forma total. A turnê de 'Villains" deu oportunidade ao grupo de poder abrir mais ainda o seu variado cardápio musical, que vem se expandindo de forma latente desde o início da década passada. Tanto que a escolha do repertório prioriza os dois últimos discos do grupo, abandonando um pouco a crueza embrionária e passando-se a dedicar em arranjos e melodias esparsas. Neste show do Maracanã, são raros os momentos de entorpecimento sonoro com guitarras cuspindo acordes e distorção e gente batendo cabeça por todo lado - como pudemos conferir em 'Millionaire', do petardo 'Songs For The Deaf'.

Mesmo que o início tenha se dado na trinca do disco Like Clockwork... (com destaque para a pancada "My God Is The Sun"), foi na vibe de duas novas - "Feet Don't Fail Me" e a ótima "The Way You Used To Do" - que o grupo convidou o público a pegar carona nessa nova estrada percorrida por eles. O clima é dançante, rockabilly e de melodias macias. Dando ênfase principalmente ao trabalho harmônico e esmero instrumental, algumas canções acabam soando mais pré-dispostas a esse formato escolhido pelo grupo, como é o caso de "Villains Of Circunstance" e a indispensável "Make it Wit Chu" - única de 'Era Vulgaris' neste show. A boa voz de Josh Homme ajuda ainda mais. O cara anda com a imagem arranhada por ter chutado o rosto de uma fotógrafa num show recente da banda, mas esta noite tentou fazer de tudo para ser simpático. Foi comunicativo na medida do possível e mostrou bom humor em alguns momentos. "Essa aqui é sobre foder", disse ao anunciar o clássico "The Lost Art Of Keeping Secret", do álbum Rated R (lançado em 2000). 
Michael Shuman em ação no palco do Maracanã [Foto: Marcos Hermes]
Embora alguns fãs das antigas tenham sentido falta de alguns clássicos pontuais (como "Feel Good Hit Of The Summer"), outros não não só estiveram presentes, como deram gás ao show em momentos cruciais, como "Little Sister", "Go With The Flow" e a de riff cantarolado pela galera, "No One Knows", com direito a solo de bateria ensurdecedor. No fim, um dos grandes momentos de quase todas as apresentações da banda: o final apoteótico com a devastadora "Songs For The Dead".

Mesmo com um show diferente de suas origens, o Queens Of The Stone Age deu ao público um número altamente relevante, e comprovou, que se depender deles, o rock continuará se renovando por muitos anos ainda, seja com guitarradas cortantes ou levadas suingadas para balançar os quadris.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Foo Fighters no Maracanã tem enxurrada de hits, AC/DC e Queen: "É o Rock in Rio!", diz Grohl

Dave Grohl em ação no show do FF no Maraca [Foto: Marcos Hermes]
Por Bruno Eduardo

Não foi por acaso que o Foo Fighters tornou-se um dos maiores nomes do rock nos últimos quinze anos. Após lançar 'There is Nothing Left To Lose', em 1999, o grupo acabou virando referência para um mainstream carente de modelos pré-estabelecidos - o que desagrada até hoje a galera que acende vela para Kurt Cobain. Tudo bem, os fãs devem admitir: musicalmente, o Foo Fighters não é uma banda revolucionária - como o Nirvana, por exemplo. Porém, há algo que não se pode negar: em cima do palco eles não decepcionam e justificam a pompa investida ao que se refere um grande show de rock nos tempos atuais.  

O grupo possui aquela postura peculiar das bandas consagradas, em que todas as ações parecem devidamente planejadas. A prova disso é que repertório não possui grandes surpresas - incluindo as mesmas paradinhas, improvisos e discursos de auditório de Dave Grohl. Os caras não escondem o jogo: eles jogam para galera mesmo e todo mundo sabe. Mas quem se importa? Um show do Foo Fighters é sempre jogo ganho. 

A banda entrou ao som de "Run" - vencedora do Grammy como melhor música rock do ano passado - e engatou uma trinca de sucessos incontestáveis: "All My Life", "Learn To Fly" e "The Pretender". "Isso aqui é um show de rock, ok? Vocês gostam de rock, né?", disparou Dave Grohl. Em seguida, o grupo voltou ao novo disco, 'Concrete And Gold', com a excelente "The Sky Is A Neighborhood", faixa que traz frescor ao repertório de hits hard rock e que contou esta noite com um coral feminino e uma ótima inclusão do tecladista Rami Jaffee, que embora acompanhe a banda desde 2005, foi incorporado como membro oficial no ano passado. 
Taylor Hawkins foi uma atração a parte na apresentação [Foto: Marcos Hermes]
A força do repertório é comprovada pela quantidade incrível de hits radiofônicos, elevando a cantoria durante toda a apresentação e exigindo cada vez mais do titio Grohl, que tenta quebrar propositalmente o ritmo do show em vários momentos para dar aquela esfriada básica - algo que vem tornando-se comum desde que o mesmo começou a ter problemas com as cordas vocais em 2011. Mesmo assim, ele foi ajudado por um coro de 30 mil vozes, e não teve dificuldade para conduzir duas horas e meia de apresentação ininterrupta, que se fez entre hits óbvios e várias referências aos clássicos do rock, como por exemplo, "Under My Wheels" do Alice Cooper (cantada pelo guitarrista Chris Shiflett), "Blitzkrieg Bop" dos Ramones e "Another One Bites The Dust" do Queen. "Isso aqui é o Rock in Rio", disse Grohl, que abriu espaço para o baterista Taylor Hawkins encarnar Freddie Mercury numa ode a versão eternizada de "Love Of My Life", com Maracanã inteiro cantando à capela.

Por ser um show basicamente "greatest hits", a única canção que pareceu meio deslocada foi "Make it Right", terceira (e boa) música do novo disco, mas que não ganhou o coro da galera. Tanto que o contraste veio em seguida com "Monkey Wrench", do petardo 'The Colour And The Shape', agradando em cheio os fãs que adoram bater cabeça, e depois na dobradinha de hinos rock: "Times Like These" e "Best Of You" (com direito ao coro de arquibancada, "ô ô ô ô").
Fã clube da banda marcou presença na grade [Foto: Marcos Hermes]
No bis, "This is A Call", primeira música do primeiro disco (lançado há mais de vinte anos) e que ainda soa forte ao vivo, além de um cover para AC/DC ("Let There Be Rock") e o final de sempre com "Everlong". Não há grandes surpresas, teorias ou previsões quando o assunto é uma grande banda e um grande show de rock - ainda mais quando o dono da banda é um cara que sabe tudo disso. E nesse jogo de megashows de rock em grandes estádios o Foo Fighters confirma um roteiro infalível que consagra megabandas durante décadas de rock and roll: os caras jogam para a galera e vencem de goleada.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Phil Collins emociona Maracanã em seu primeiro show solo no Brasil

Phil Collins inicia turnê brasileira no Rio [Foto: Amanda Respicio / Rock On Board]
Por Bruno Eduardo

Mais de quarenta mil pessoas enfrentaram o mau tempo que acompanha o Rio de Janeiro nos últimos dias para reverenciar mais uma lenda viva da música. No meio do palco, surge um homem calvo e curvado pelo tempo, vestindo roupas pretas largas. Ele segue apoiado em uma bengala até sentar na cadeira. E permaneceu ali, sentado, diante de uma multidão de olhares e corações atentos - que se confundiam entre lágrimas e cantorias sem fim. 

Aos 67 anos de idade, Phil Collins chega ao Brasil pela primeira vez desde que formou sua carreira solo. O desgaste físico aparece evidenciado pelo grave problema na coluna, mas a voz ainda está lá. Ela continua sedosa, emotiva e de timbre inconfundível. O cartão de visitas é nada menos que uma dobradinha de seus maiores hits radiofônicos: "Against all odds (Take a look at me now)" e "Another Day in Paradise". O fato de tocar logo de cara duas das músicas mais esperadas da noite serviu para acalmar a ansiedade do público, que pôde a partir dali, conferir a excelência de um time de músicos do primeiro quilate. 

Além de alguns parceiros de longa data, como o baixista Leland Sklar, o guitarrista Daryl Stuermer e o trompetista Harry Kim, Phil Collins trouxe ao Brasil, o seu filho Nic Collins, de apenas 16 anos de idade, que mostra desenvoltura e rara técnica em canções como "In The Air Tonight". "É um bom garoto", elogia. Mas o destaque fica mesmo para os cantores de apoio, principalmente Army Keys e Arnold McCuller, que se revezam em duetos com Collins e chegam no ápice em "Easy Lover", um dos maiores sucessos pop dos ano 80, criado em parceria com Philip Bayley, do Earth, Wind & Fire.
 
Mesmo aos 67 anos, voz continua em dia [Foto: Amanda Respicio / Rock On Board]
Dos tempos de Genesis, uma ligeira preferência ao álbum mais comercial da banda, 'Invisible Touch', lançado em 1986. Deste trabalho, foram lembradas duas canções: "Throwing It All Away" e a canção título do disco, que é certamente uma das mais conhecidas entre o grande público. Do Genesis, Collins inclui ainda a sublime "Follow You Follow Me", lançada no final dos anos setenta e que marcou a saída do guitarrista Steve Hackett do grupo.

Quando a banda atacou de Supremes em "You Can't Hurry Love", o Maracanã se transformou em uma gigantesca pista de dança, que ganhou força em um dos sucessos de Phil Collins lançado nos anos noventa: "Dance Into The Light". "Sussudio" trouxe flâmulas e confetes coloridos sobre o público e o bis de "Take Me Home" deu conta final à apresentação. Contrariando todas as previsões, limitações físicas e probabilidades reais, Phil Collins respondeu no palco que nada ainda é capaz de superar a magnitude de uma lenda. Não é a toa que o nome da turnê é "Not Dead Yet" (Não morri ainda). Mesmo assim, é sempre bom lembrar: Lendas não morrem nunca.

Na abertura, um bom show de rock do The Pretenders

Ícone feminino do rock and roll, Chrissie Hynde mostrou que a atitude continua em dia mesmo aos 66 anos de idade. Afinal, poucos conhecem desse gênero tanto quanto essa senhora, que nos anos setenta dividiu-se entre parcerias com embriões do punk rock e lideranças na origem do jornalismo especializado britânico. Mas o verdadeiro triunfo de Chrissie foi mesmo no início dos anos oitenta com o The Pretenders e no palco do Maracanã isso ficou constatado em músicas que continuam soando frescas, incluindo a perfeição pop de "Talk Of The Town" e "Back on the Chain Gang". Sem abandonar o visual nostálgico, com direito a corte de cabelo com franjinhas e jaqueta, Hynde domina a peleja e consegue entreter o público durante toda a apresentação do grupo. É um bom show de rock, e que ganha mais energia na parte final. Entre solos de guitarra e melodias à capela ("I'll Stand By You"), o número chega ao ápice numa versão quentíssima de "Middle Of The Road", com destaque para o generoso solo de bateria. Mesmo na posição de "especial guest" e mais indicada a arenas menores e mais enfumaçadas, o The Pretenders deu a prova que precisávamos que eles permanecem fiéis ao espírito genuíno do rock and roll. E isso pode colocar na conta da experiente Chrissie Hynde.
 
Chrissie Hynde liderou o Pretenders em bom show [Foto: Amanda Respicio]

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Far From Alaska - Quando o segundo disco é ainda mais legal que o primeiro

Cris Botarelli e Emmily Barreto formam o dueto vocal do FFA (Foto: Adriana Vieira)
Por Bruno Eduardo

Poucas bandas de rock no nosso atual cenário possuem a mesma vibe descolada e incrivelmente espontânea como os potiguares do Far From Alaska. Eles realmente fazem o que estão a fim e boa! E mesmo assim acabam soando honestos tanto no som quanto em suas performances. Embora possuam um engajamento notório, que já rendeu frutos até então inesperados para uma banda que saiu das garagens do Rio Grande do Norte (como um prêmio na Europa e participação em grandes festivais gringos), o FFA segue seu caminho na maciota, sem fazer alarde com o lançamento de seu segundo disco, o ótimo 'Unlikely'.

Poucas semanas após terem chegado da sessão de gravação do disco nos EUA, tive a oportunidade de ser um dos primeiros a conversar com eles - mais precisamente com a simpática Cris Botarelli - sobre o que seria o sucessor do irretocável 'Mode Human', lançado em 2014. E a única constatação que tive após a conversa, era de que o disco seguiria o instinto da banda, que parecia realmente despreocupada em demarcar qualquer território. O fato de terem trabalhado com a conceituada Sylvia Massy - que já carimbou medalhões como Red Hot Chili Peppers e System Of a Down - dava ainda mais confiança de que eles tinham realmente acertado o alvo.

O disco, para quem não sabe, já está há alguns meses em todas as plataformas digitais, inclusive no Youtube, onde todas as faixas foram divulgadas separadamente e com arte gráfica própria para cada uma delas - além de um clipe animadíssimo para o single "Cobra", que chegou a quase 90 mil visualizações nesses primeiros meses. Confesso que não tinha ouvido o álbum muitas vezes antes do show de lançamento no Rio de Janeiro, mas mantive o radar atento às opiniões que pipocavam ao meu redor. A única coisa que eu realmente tinha me ligado eram os nomes das canções (quase todas com nomes de animais).
 
Essa foi a segunda vez do Far From Alaska no Circo Voador (Foto: Adriana Vieira)
A decisão de esperar por um show da banda ao invés de tecer qualquer comentário público referente ao trabalho foi uma opção arriscada, porém acertada, pois acabou me dando a exata noção da evolução do grupo. Ainda mais, quando a banda ajuda e decide enfiar todas as músicas do novo disco no repertório. De 'Mode Human', apenas três foram lembradas.

O que eu posso dizer, é que numa noite que ainda prometia Scalene, o Circo Voador recebeu um Far From Alaska mais up, com roupas fluorescentes, atmosfera muito mais viva e músicas de melodias incrivelmente pop. Como já era de se esperar, há todas as referências possíveis nesse novo trabalho, mas tudo é untado por uma rara sagacidade. Há blues, jazz, metal, baião (?) e o rock segue soando fresco na mão do quinteto. Emmily Barreto, que continua cantando divinamente bem, definiu o disco numa frase: "eu me toquei que esse disco é cheio de músicas para bater a cabeçar e mexer a raba". Não duvide! Ouça "Flamingo", que entre riffs de guitarra, entrega uma levada regional para balançar quadris de qualquer headbanger perdido numa roda de pogo. Outras duas que também funcionam muito bem ao vivo e demonstram a versatilidade de 'Unlikely', são "Pizza" e "Pig" (um rockão de guitarra blueseira e vocal que remete Alanis Morissette).

O Vozeirão de Emmily Barreto continua surpreendendo (Foto: Adriana Vieira)
Não se pode desprezar também o fato deles serem muito bons de palco, o que aumenta ainda mais a força das novas músicas. A energia que a banda passa ao vivo é de descontração, felicidade, feeling e camaradagem. É uma banda que cresce aos poucos mas continua com a mesma atmosfera de garagem, de underground. Cris Botarelli, que divide microfone com Emmily é uma parte do front do grupo - ela bate cabeça, canta, se comunica, e mesmo machucada (torceu o tornozelo numa investida de palco) mantém a inquietude apoiada numa perna só. E o que é mais legal ainda, é que eles estão apenas preocupados em tocar suas músicas. É uma banda que soa livre, liberta de amarras e paradigmas, e tudo isso soa lindamente em 'Unlikely', que é ainda mais legal que Mode Human, pelo simples motivo de representar bem o que eles são hoje: uma das bandas de rock mais legais da atualidade.

sábado, 4 de novembro de 2017

No Rio, Green Day satisfaz público em show enérgico e de diversão garantida

Green Day trouxe ao Rio a turnê do novo disco, 'Revolution Radio' (Foto: Rom Jom)
Por Rom Jom

O trio californiano do Green Day fez uma noite memorável em seu primeiro show da turnê “Revolution Radio” no Brasil. Talvez a palavra certa seria “enérgico”. A banda passou a limpo toda a sua carreira da melhor maneira (e ordem!!). Aquele trio de rapazes queridos da MTV da década de 90 conseguem até hoje surpreender os novos e velhos fãs.

A casa não estava totalmente cheia, porém, foi o suficiente para emanar energia para todos os lados. Embalado com o som do Queen com “Bohemian Rhapsody” e “Blitzkrieg Bop” do Ramones – com direito a um coelho rosa animando a plateia – a banda surge com uma vitalidade que relembrou a primeira apresentação em terras cariocas em 1998 – quando ainda eram apenas um trio, e hoje possuem mais três músicos de apoio– saudando o público e enlouquecendo ao som de “Know Your Enemy” ,“Bang Bang” e “Revolution Radio” com direito a explosões e muitos fogos (E teve muito mais no decorrer da apresentação). As músicas novas foram recebidas muito bem, e aliás, são muito melhores ao vivo.

“Demorou sete anos para voltarmos! Vamos enlouquecer juntos!” Billie Joe está carismático e enérgico desde o primeiro segundo, e logo na primeira música já convida um fã para cantar com ele no palco, fato este que já virou marca da banda: a interação com os fãs em suas apresentações. E não foi a única. Em “Longview” um fã subiu assumindo o vocal e em “Knowledge” – cover do Operation Ivy – uma fã sobe para tocar guitarra e de quebra a leva de presente. Como assim, não? E esses não foram os melhores momentos do show. Não mesmo.

E o que dizer de “Holiday” e “Boulevard of Broken Dreams”, do idolatrado American Idiot (20004) cantadas em som uníssono por todos, com direito a 'paradinhas' no meio da música para milhares de agradecimentos aos presentes? O que em determinados momentos tiram um pouco a energia da apresentação, como em “Hitchin’ a Ride” (do excelente Nimrod de 1997), que no momento em que a música vai explodir, o grupo prolonga tanto que você até esquece em que momento ela parou. Mas até isso parece agradar ao público. Vai entender.
O animado Billy Joe, enrolado na bandeira do Brasil (Foto: Rom Jom)
O petardo Dookie de 1994 foi lembrado com duas ótimas dobradinhas: “When I Come Around” e “Welcome to Paradise” e quase no final do show com “Basket Case” e “She”, que convenhamos, fez todos os presentes muito felizes. Dá para perceber a sintonia perfeita de Mike Dirt (baixo) e Tré Cool (bateria) com os sons antigos. Nostalgia boa!

E mais próximo do fim tivemos uma versão mais do que longa de “King for a Day” com direito a medleys de “Satisfaction” do Rolling Stones até “Hey Jude” do Beatles com a banda inteira fantasiada. E ainda teve o saxofonista tocando “Garota de Ipanema” em seu momento solo. “Still Breathing” do novo álbum tira o público deste marasmo momentâneo seguida de “Forever Now” que fechou a primeira parte.

Ainda que não fosse surpresa, a banda retorna em um bis fenomenal com “American Idiot” e uma versão linda e mega acelerada de “Jesus of Suburbia”. E para deixar a noite ainda melhor Billie volta ao palco sozinho com o violão e fecha a noite tocando “21 Guns” e a excelente “Good Ridance”.

Uma das coisas ótimas é constatar que o Green Day se reinventa a cada turnê e consegue apresentar um número onde todos se divertem. Diversão fácil de ver e sentir - tando de banda quanto de público. Coisa rara hoje em dia. Todos felizes? Sem dúvida.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

De volta ao Rio com show próprio após nove anos, Megadeth é nostálgico e relevante

Mustaine liderou o Megadeth em show cheio de clássicos (Foto: Amanda Respício)
Por Pedro Nuccini

Mesmo sendo carta marcada no país, o retorno do Megadeth ao Rio após quatro anos guardava algumas novidades. A banda esteve aqui como abertura para o Sabbath em 2013, mas desde 2008 não se apresenta na cidade com show próprio. Então a noite reservava boas novas, principalmente na formação da banda, que apresentava pela primeira vez ao público carioca, o guitarrista Kiko Loureiro, que parece estar mais ambientado que nunca ao grupo liderado por Dave Mustaine. Da formação clássica, que gravou quatro álbuns - contando o petardo Rust in Peace e o ótimo Countdown To Extinction - há além de Mustaine, o baixista David Ellefson.

O show começou na melhor forma possível, com "Hangar 18", seguindo para algumas pancadas dos primeiros trabalhos ("Wake Up Dead", "In My Darkest Hour") e alguns hits que já completam vinte anos, como é o caso de "Trust", um dos últimos sucessos do grupo com participação do saudoso Nick Menza, falecido no ano passado. Mesmo divulgando seu novo trabalho, o já respeitado por crítica e público, Dystopia, a apresentação desta noite é marcada por um caráter nostálgico. Do último álbum, quatro canções são apresentadas (com destaque para a ótima "The Threat is Real"), no entanto, a noite ganha forma quando eles trazem ao público aquela banda que fez parte da programação da MTV nos anos noventa. De Youthanasia, a já esperada "A Tout Le Monde", e outra nem tão esperada assim, mas grata presença: "Sweating Bullets" (do disco Countdown). Outro destaque no repertório foi a presença de "Mechanix", canção escrita por Mustaine na época em que integrava o Metallica, e que inclusive foi lançada por sua ex-banda com o título de "The Four Horsemen".

Kiko Loureiro foi um dos mais exaltados pelo público (Foto: Amanda Respício)
Sobre a estreia de Kiko Loureiro no Rio, podemos dizer que não teria um quadro melhor para o guitarrista, já que o mesmo parece possuir um fã-clube próprio, que o deixa totalmente à vontade para mostrar toda a virtuose que o marcou como um dos grandes instrumentistas da história - dando a impressão em alguns momentos que ele e não Dave, é o guitarra número um da banda. Além de Kiko, o destaque vale também para o baterista Dirk Verbeuren, que substituiu de vez Chris Adler do Lamb Of God. Na cantoria do público no refrão do hino supra sumo do thrash metal "Holy Wars", fica provado que mesmo após trinta anos e um monte de passagens pelo Brasil, um show do Megadeth continua tendo uma relevância indiscutível para as novas e antigas gerações de fãs.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

U2 inicia turnê "The Joshua Tree" no Brasil com o melhor show da vida de 70 mil pessoas

Show de celulares na apresentação do U2 no Morumbi (Foto: Stephan Solon)
Por Silvia Briani

Ao som da música de introdução “The Whole of the Moon” (The Waterboys), o baterista Larry Mullen Jr. entra sozinho e caminha em direção à bateria montada no pequeno palco anexo que fica no meio do púbico, despretensioso, senta, se ajeita e já de cara manda forte na bateria o começo de “Sunday Bloody Sunday”. Na sequência vem entrando The Edge tocando a guitarra, Bono entra cantando, e o último a se juntar a eles é o baixista Adam Clayton. Começo de show avassalador. Estádio lotado e as pessoas pulando compactamente. O show segue em ritmo forte, e sem pausa, Adam Clayton já engata o baixo com "New Year’s Day", também do álbum War de 1983 e na sequência "Pride", deixando claro que o show testaria as coronárias da maioria dos fãs ali presentes. Talvez a comemoração dos 30 anos de “The Joshua Tree” tenha deixado em casa a molecada. O publico que ali se viu era realmente de fãs mais antigos da banda, ansiosos por ver seus clássicos de adolescência ao vivo.

Aos primeiros acordes de “Bad”, Bono Vox fala que o universo conspirava para que essa fosse uma noite épica de Rock’n’Roll. Então ele convida a que todos se rendam uns aos outros, e à música. A canção flui emocionante, dedicada no Brasil à Renato Russo e Cazuza, e termina emendando “Heroes” de David Bowie, e alguns que se deixam levar pela forte energia do momento vem às lágrimas. Até aí a banda se apresentava de maneira crua no palco anexo (aquele que vai até o meio do público), atestando que não precisam de efeitos e pirotecnia para levar os mais de 70 mil presentes à loucura. Performances perfeitas, cruas, pesadas, claramente mais “raiz” e menos “nutella”.

As primeiras notas de “Where The Streets Have No Name” anunciam o início da parte principal da noite, enquanto todos da banda se dirigem ao palco grande, ao mesmo tempo em que o telão começa a exibir a grande árvore em um fundo vermelho. As sombras de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton complementam a impactante beleza da imagem no imenso telão que vai de um lado a outro do palco. Era a hora da ‘estrela da noite’ – “The Joshua Tree” enfim estava começando. The Edge, com seu estilo único, dá os primeiros acordes da música e a galera ovaciona. Bono manda muito bem no vocal potente e emocionado. O estádio vai à loucura. Apoteótico.

O coro de 70 mil vozes que desde a primeira música acompanhava Bono Vox em cada verso, não fez diferente em “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With Or Without You”. As luzes dos celulares davam aquele efeito bonito em todo o estádio. Na sequência “Bullet the Blue Sky” vem forte, com peso e guitarra desconcertante, perfeita e contrastante intridução para a linda “Running to Stand Still” que a galera cantou juntamente em coro com Bono Vox.
Juntos, num dos momentos mais bonitos da noite (Foto: Stephan Solon)
A Banda trouxe peso e paixão às músicas mais lado B do álbum, lembrando a pegada das performances ao vivo do filme “Rattle and Hum” de 1988 mas nitidamente o público aproveitou as músicas menos conhecidas para dar aquela respirada, apreciá-las, acalmar o coração, cantar e se preparar para a porrada seguinte, que certamente viria. Assim foi durante “Red Hill Mining Town”, “In God’s Country”, “Trip Through Your Wires”, com  Bono e sua gaita e “One Tree Hill”. Para a introdução da música seguinte, o telão exibiu o trecho de um filme americano mais antigo, onde temos um personagem chamado Trump que curiosamente fala sobre a construção de um muro. Crítica direta, e então “Exit” veio com a força do baixo, da voz, e dos trechos estrondosos de bateria e guitarra. Montanha russa de porrada e calmaria traduzindo a mensagem da música sobre o contraste e dualidade moral entre amor e ódio que permeiam a mente de um assassino perturbado, como bem explicou o próprio Bono Vox em 1987 ao fazer a introdução da música em um show “Essa canção é sobre um homem religioso… que se tornou um homem muito perigoso, e que não conseguiu entender o mistério das mãos do amor”. Talvez a parte mais pesada do show.

O U2 tem o dom de transformar cada show em um ato político, e com esse não seria diferente. O próprio álbum “The Joshua Tree” surgiu com esse contexto há 30 anos, e revivê-lo hoje não foi somente uma saudosista exibição de um álbum clássico. A banda soube contextualizar com maestria as questões políticas e críticas de suas músicas mais antigas aos acontecimentos e retrocessos políticos e sociais de hoje pelo mundo, inclusive o Brasil. Além do discurso direto, as críticas e mensagens reflexivas estavam presentes no telão, que sincronicamente complementavam as execuções musicalmente fortes que aconteciam no palco.

Mothers of the Disappeared” encerra a apresentação do Album “The Joshua Tree”, com o agradecimento de Bono Vox ao público por ouvi-lo. Vem então a primeira pausa oficial do show.

Os irlandeses voltam ao palco em clima de festa com “Beautiful Day” e o Morumbi treme ao som de “Elevation”, seguida de outro hit da banda “Vertigo”. Três hinos mais recentes, que mostram a influência da banda nos anos 00. O protesto fica por conta de vários closers dados às costas do baterista Larry Mullen Jr que trazia uma estampa contra a censura.

Nova pausa e a banda volta com a nova "You're the Best Thing About Me" e “Ultraviolet (Light My Way)” que foi dedicada às mulheres, celebrando a força transformadora de grandes mulheres do mundo, conhecidas ou não, mas que são verdadeiras heroínas que em seus contextos sociais resistem, insistem e persistem a luta por seus direitos e abrem caminhos na história enquanto no telão apareciam fotos de grandes mulheres como Frida Kahlo, Madre Teresa, Tarsila do Amaral, Maria da Penha, Michelle Obama, Eva Peron, Patti Smith, e também imagens de mulheres ativistas anônimas. Lindo e forte.
Telão de alta definição medindo 80 metros por 18 de altura (Foto: Stephan Solon)
O show se encerra com Bono passando sua mensagem aos brasileiros, lembrando enfaticamente que há anos atrás o Brasil mostrou ao mundo como cuidar das pessoas mais vulneráveis com dignidade, claramente se referindo às políticas de igualdade adotadas pelos governos anteriores, e também enfatizando a importância do Brasil no papel de combate à AIDS. Bono pede que os brasileiros reconheçam a verdadeira importância disso, e como isso fez a diferença, e pede que o povo, estudantes, doutores,  todos se unam em uma só liderança e trabalhem juntos para salvar as vidas dos mais pobres e mais vulneráveis, reforçando que somos muito mais poderosos quando trabalhamos em conjunto como “Um”, palavra substituída simplesmente pela introdução dos primeiros acordes da música “One”.

Sim, o universo conspirou a favor. A noite foi épica. Uma mega apresentação, digna de uma mega banda que não deixou para trás suas raízes. Não teve “selinho no Bono”, a pegada dessa turnê é claramente outra. A presença de palco de todos os integrantes transparece a paixão tesão da Banda por fazer esse trabalho em 2017. Bono sempre muito expressivo, cantou com voz potente e apaixonada. Sem dúvida o melhor show entre todos que a banda já fez no Brasil. Sejam bem vindos de volta ao Rock’n’Roll! Nós preferimos vocês assim.

Na abertura, Noel faz bom show mas para poucos interessados

A noite começa com apresentação agradável do Noel Gallagher’s High Flying Birds que traz 6 ótimas músicas do trabalho solo de Noel Gallagher mas não empolgam muito o público, até pela postura mais contida do músico, apesar dele dedicar a última musica do show para o jogador Gabriel Jesus. Os vocais da plateia se aquecem quando Noel traz covers de sua antiga banda Oasis, e o show se encerra após uma hora.

sábado, 30 de setembro de 2017

O Rock in Rio 2017 em 20 fotos lindas e 20 fatos marcantes


Por Bruno Eduardo

O Rock On Board viveu o Rock in Rio intensamente nesses sete dias de festival. Trouxemos várias resenhas de shows, antecipamos os setlists dos artistas, entrevistamos outros, tiramos algumas dúvidas necessárias, conversamos com os leitores em tempo real e - principalmente - cumprimos o nosso papel de tentar traduzir com isenção e rapidez, tudo o que os nossos leitores estavam interessados em saber.

Agora, decidimos fazer um resumo do festival bem ao nosso modo. Escolhemos as fotos [de shows e de público] que melhor resumem essa edição do Rock in Rio 2017. Quem assina a maioria das fotos, é a nossa fotógrafa Adriana Vieira - com exceção dos artigos 16 e 19, fotografados por outro craque do nosso time (Rom Jom) e 17, 18 e 20 (cedidos pela produção / I Hate Flash).

  O Rock in Rio em 20 fotos e 20 fatos:

 1. Chuva Zero. O Rock in Rio 2017 foi de céu azul em quase todos os dias. Teve até friozinho na segunda semana, mas a chuva não apareceu para atrapalhar.
2. Queima de Fogos. Nesta edição, o festival recebeu o maior espetáculo de fogos de sua história. Foram 4,5 toneladas de artefatos lançados de 18 pontos, em três momentos diferentes.
3. Revelação. Assim como aconteceu com a banda Diesel, em 2001, muita gente conheceu a Ego Kill Talent no último dia do festival. O show foi elogiadíssimo pelo público. 
4. Bateu ponto. O Red Hot Chili Peppers teve a responsabilidade de fechar o festival pela segunda vez em sua história. Só que agora eles não decepcionaram. 
5. O Melhor. Coube ao veterano Alice Cooper o melhor show de rock do Palco Sunset nesta edição. Recebendo as companhias ilustres de Arthur Brown e Joe Perry, a Tia Alice levou o público ao delírio com seu teatro do absurdo. 
6. Representante. Sem dia dedicado ao metal (alô produção!), o novato Alter Bridge, do galã Myles Kennedy, foi um dos que tentaram aumentar o nível de decibéis na Cidade do Rock. Foi o primeiro show "pesado" da edição.
7. Dos Casais. Para a nossa colaboradora, Rosangela Comunale, esta foi a edição dos casais. Para onde apontávamos as nossas câmeras, encontrávamos um par de apaixonados. 
8. Rodada Dupla. Os fãs de Maroon 5 nunca mais irão esquecer esse Rock in Rio. A banda de Adam Levine fechou as duas primeiras noites do festival. Uma delas, substituindo Lady Gaga, que cancelou sua participação na véspera.
9. Tias Fofinhas. No show mais nostálgico do festival, o grupo britânico elevou a cantoria na Cidade do Rock com sucessos de quase toda a carreira. Faltou "Woman in Chains", mas rolou uma surpreendente versão de "Creep" do Radiohead.
 10. Vem Pro Rio. 65% do público do Rock in Rio veio de fora do Rio de Janeiro. Com isso, mais de 400 mil turistas visitaram a Cidade do Rock, rendendo R$1,4 bilhão na economia da cidade.
 11. Dance, Dance, Dance. O primeiro grande momento do Rock in Rio veio do palco Sunset. Nile Rodgers e Chic fizeram um dos shows mais legais que o festival recebeu nos últimos tempos. Quem ficou lá assistindo, não ficou parado.
 12. Boletim Médico. O vocalista Steven Tyler cancelou todos os shows da turnê na América Latina após o bom show do Rock in Rio e outro em SP. Oficialmente, problemas renais. No palco, tudo normal e um show cheio de hits.
 13. Gigante. A nova Cidade do Rock foi a maior da história. E mais bonita também. Tudo grandioso e cheio de opções. Mas poderia ficar nos 85 mil iniciais. Para quem buscava comodidade, transitar à noite com 100 mil pessoas era uma tarefa árdua.
 14. Nova Geração. A única banda brasileira da nova geração a ter o privilégio de tocar no palco Mundo foi o Scalene. Os garotos de Brasília aproveitaram para mostrar músicas de seu novo disco, "Magnetite". Que isso torne-se cada vez mais uma prática da produção.
 15. Selfies in Rio. Público fazendo selfie no gramado do Rock in Rio não é novidade pra ninguém. Mas nessa edição, o festival instalou dez tablets gigantes na Cidade do Rock, que permitiam fazer selfies e gifs, que eram enviados para o email da pessoa.
 16. Vozeirão. Escalado para fechar o palco Sunset num dia dedicado ao rock, CeeLo Green conseguiu conquistar a plateia com muita simpatia e um vozeirão de primeira. A apresentação teve referências ao funk mas foi levada no melhor do pop.
 17. Sem Voz? Um dos nomes mais comentados nas redes sociais durante o Rock in Rio foi de Axl Rose. O cantor do Guns N'Roses sofreu uma avalanche de críticas por conta de sua voz (ou falta de). Os fãs é que parecem não ligar, já que a apresentação da banda lidera quase todas as pesquisas de preferência desta edição. Vai entender.
 18. Cadê o Som? Um dos grandes mistérios e que precisa ser estudado pela produção do Rock in Rio é o som do Palco Mundo, um dos mais irregulares de todas as edições. Em vários shows, o som do palco apresentava inconstância e um volume baixíssimo. O show do Offspring, por exemplo, sofreu com essa falta de pressão dos PA's.
 19. Boa Jogada. O Incubus, do vocalista Brandon Boyd (foto), sofreu com a escalação mas conseguiu driblar um público que não era seu ao apostar num repertório mais rock. Ainda jogou para galera numa versão de Pink Floyd. E tudo terminou bem.
 20. Zerou o Festival. Precisa falar alguma coisa? Esse você pode repetir na próxima edição que tá liberado, Medina!

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Em noite memorável, Guns N'Roses encerra São Paulo Trip com mais de três horas e meia de show

Axl e Slash em show memorável no Allianz Parque
Por Karla Beltrani

O último dia do festival São Paulo Trip que aconteceu neste domingo (26) contou com o show das bandas Tyler Bryant and the Shakekedown e Alice Cooper na abertura.

A última vez em que o veterano Alice Cooper tocou em São Paulo foi em 2007 no Credicard Hall, e me recordo de um show incrível, considerado um dos melhores naquele ano.

Dez anos depois e o show continua incrível, Alice Cooper esbanja vitalidade com seu espetáculo no melhor estilo “rock horror show”.

A banda conta uma guitarrista mulher, Nita Strauss, de 30 anos, que deu um show com solos virtuosos e carregados do peso e distorção. Além de linda, a guitarrista faz jus à excelente banda que acompanha o vocalista. Alice Cooper ainda sabe como chamar a atenção dos fãs com seus shows teatrais, cheios de performances com direito a boneca que vira bailarina (a filha do cantor, Calico Cooper, que é atriz e bailarina). A guilhotina no palco, o momento em que o vocalista é decapitado, as diversas trocas de roupa, o figurino, tudo no show do Alice Cooper é como um show de mágica, surpreendente.

O show teve a participação especial do guitarrista Andreas Kisser (Sepultura) tocando “School´s Out” e “Another Brick in the Wall” do Pink Floyd, música que encerra a apresentação da banda com direito a bolinhas de sabão e balões coloridos pelo palco voando em direção ao público.
Momento de gala com o trio de ferro da banda: Axl, Slash e Duff (no fundo)
Com 15 minutos de atraso, o Guns N´ Roses entra no palco e já emplaca a abertura do show com o clássico “It´s So Easy”. Axl já se arrisca logo de cara com notas mais agudas, mas o público parece pouco se importar com as falhas de voz. Tudo mudou e Axl mudou, tanto na voz quanto na aparência, e com 55 anos já está longe de parecer o garoto que corria de cueca boxer ou kilt e coturnos pelos palcos de um lado para o outro.

O show tem uma sequência de hits, para a alegria geral dos fãs. Na música “Chinese Democracy” Axl já mostra um pouco de dificuldade nas notas, mas seu ego não o deixa parar e ele segue sem medo, acompanhado do som da guitarra do famoso guitarrista Slash, que soa um pouco mais grave, mais suja. Slash abusa de solos que parecem intermináveis e mostra o porquê ainda é considerado um dos melhores guitarristas, sorte dos fãs!

Em “Better” Axl Rose ainda parece sofrer para cantar. Desafina, e a voz muitas vezes parece falhar nitidamente (embora na voz média e grave e na voz de peito, Axl vai muito melhor), mas para muitos isso pode ter passado despercebido, graças ao backing vocal da tecladista Melissa Reese e do baixista Duff que “seguram as pontas” em várias músicas.

Das poucas interações, o vocalista pergunta ao público: “Como vão?”. É impossível não reparar na boa forma e performance no palco do baixista Duff, que lembra os tempos áureos do Guns! Live And Let Die” deixa a plateia ensandecida: os fãs, gritam, berram, cantam, o estádio está iluminado por luzes de celulares, e do palco vem sons que remetem aos tiros no refrão.

Não se pode dizer que foi um repertório ruim ou mal escolhido, pelo contrário, eles acertaram o “tiro” em cheio nos fãs. Mas a “menina dos olhos” nesse show é mesmo Slash, que rouba toda a atenção pra si. Slash sola um pouco mais de tempo, como em “Yesterday” e “Coma” e alguns fãs reclamam da demora, dos longos solos, mas o guitarrista compensa. You Cold Be Mine” também não pode faltar, da trilha sonora do filme “O Exterminador do Futuro 2”, ilustrado por labaredas de fogo saem do palco.
Assim como na última vez no Brasil, Slash continua em forma
Não teve uma música em que os fãs não cantaram ou que a plateia não ficasse iluminada nessas quase 3 horas e meia de show, que teve seu auge na homenagem póstuma ao vocalista Chris Cornell com a música “Black Hole Sun”. Foi lindo e emocionante. Um cover inusitado “I Feel Good” de James Brown, seguido de buzinas de trem anunciando “Night Train”, agitou até os fãs mais cansados.

Um estádio inteiro cantando “yeah, just a little patience, yeah, yeah” em “Patience”, com certeza para muitos foi o presente da noite! A banda ainda faz um cover de “The Seeker”, um hino da banda The Who que tocou no Rock In Rio e na primeira noite do São Paulo Trip.

Paradise City” fecha o último dia do Festival São Paulo Trip, com um público feliz e satisfeito e um repertório que fez valer o ingresso e as horas em pé.

Boa música e superação! Memora mostra no Rock in Rio a realidade da cena independente

Rafael Lima, da banda Memora: carisma no show do Rock in Rio (Foto: Adriana Vieira)
Por Bruno Eduardo

"Qualquer banda do mundo quer tocar no Rock in Rio", disse por telefone o guitarrista do The Offspring, Noodles, em entrevista a este jornalista. Estamos falando de uma banda que já vendeu milhões de discos no planeta, que tem três décadas de estrada e todas as mordomias possíveis para se apresentar num festival renomado. Imagine então, a emoção de um artista independente, que precisou conquistar o direito de ter seu nome incluso no line up após vencer um concurso de bandas mega concorrido. É aí que entra a Memora, banda carioca, que está prestes a lançar o seu primeiro disco full - produzido por Felipe Rodarte (o mesmo que trabalhou com um par de bandas da nova geração, incluindo o ótimo "Brutown", do The Baggios, recentemente indicado ao GRAMMY latino). 

O sonho de tocar num dos maiores festivais do mundo começa antes mesmo da banda conseguir subir no palco. Mas a concretização não vem de graça para uma banda como a Memora. Escalada para se apresentar no Palco Disctrict, o grupo carioca já tinha noção de seu desafio. E precisariam dar sangue e suor para conquistar a atenção do público, que estava lá para andar de tirolesa, roda gigante, comer pastel, jogar games, tirar selfies, e, sobrando um tempinho, ouvir músicas conhecidas (com as de Bon Jovi e Tears For Fears, que tocariam no mesmo dia). 
Drenna Rodrigues, da banda Drenna, participou do show da Memora (Foto: Adriana Vieira)
Com muita raça e boa presença de palco, a Memora justificou sua inclusão no line up com um show de banda grande. A simpatia do vocalista Rafael Lima é outra boa arma que o grupo tem ao vivo. "Quem disse que roqueiro não mexe o corpinho?", questionou, antes de tocarem a suingada "Sede do Peixe", uma das melhores do repertório. Que ainda teve a pancada "Do mesmo Céu, Do mesmo Chão" e algumas versões espertas para fisgar o público, como "Calibre" dos Paralamas do Sucesso, e uma pouco mais funcional de "Metamorfose Ambulante", do rei Raul Seixas. O show ainda teve seu momento de "juntos somos fortes" com a presença da cantora e guitarrista Drenna Rodrigues, que aproveitou para mostrar uma faixa de sua banda, Drenna, e pediu direitos iguais entre os gêneros na música "Ela Vai Chamar sua Atenção".

O problema é que, diferentemente do que deveria ser, a estrutura técnica dada ao show da Memora - um expoente do rock nacional - foi digna do pior que o underground possa oferecer. Os caras não tiveram direito a uma passagem de som digna, nem uma apresentação por parte da produção. O grupo teve de se contentar em subir no palco com o pior som testemunhado por este repórter em todos os dias de festival. Para ter uma ideia do drama, os PA's na primeira música encontravam-se fechados e era impossível escutar a voz de Rafael Lima, que fazia esforço para ser compreendido pelo público. Para completar o tratamento "primeira classe" (trocadilho com o transporte especial do festival), eles tiveram ainda o seu show podado (três músicas cortadas), e mesmo com o pedido do público para que tocassem mais uma canção, eles foram obrigados a deixar o palco - e assim, impedidos de tocar sua canção mais popular entre os fãs ("Ela"). 
O baixista Lucas Lima faz pose para nossa fotógrafa (Foto: Adriana Vieira)
Após o show, conversamos com a banda, que em nenhum momento falou sobre as dificuldades técnicas que viveu no palco. Afinal, eles estavam felizes com a oportunidade de cravar seu nome na história do festival e apresentar suas músicas para um público novo. Mas, que fique aqui registrado, que o rock precisa de renovação o quanto antes. E isso não fica restrito apenas aos artistas. Para que isso aconteça, cabe aos profissionais envolvidos, uma maior atenção ao produto e - principalmente - cuidado com o novo. Não adianta ter palco Rock in Rio, se a condição técnica dada é digna de um bar underground. De uma coisa é certa, a Memora apresentou no Rock in Rio a realidade da cena independente, vivenciada pela esmagadora maioria das bandas de rock no Brasil inteiro. E deixou o seu recado.

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