• Pearl Jam, The Killers e Red Hot Chili Peppers são atrações confirmadas
  • Um resumo da cobertura Rock in Rio em 20 fotos lindas e 20 fatos marcantes
  • Saiba tudo sobre os shows de Foo Fighters e QOTSA no Brasil
  • Leia a resenha de "Desaturating Seven", novo disco do Primus
  • O guitarrista Kennedy Brock falou sobre o novo disco e shows no Brasil
Mostrando postagens com marcador Discos Odiados Que Amamos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Discos Odiados Que Amamos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Discos Odiados Que Amamos: The Spaghetti Incident? (Guns N' Roses)

Em 1993 o Guns N´Roses lançou seu último disco antes da separação
Por Rosangela Comunale

O troféu abacaxi que o “The Spaghetti Incident?”, do Guns N' Roses levou da crítica e de muitos de seus fãs na época de seu lançamento é algo questionável. Na verdade, o disco pode, sim, ser considerado uma ode ao primor dos clássicos do mundo do rock´n roll. A constatação disso já se revela na contracapa com a frase: “A great song can be found anywhere. Do yourself a favor and go find the originals” (“Uma grande canção pode ser encontrada em qualquer lugar. Faça um favor e encontre os originais”). 

O fato é que Axl Rose, Slash, Duff McKagan, Matt Sorum e Gilby Clarke (substituindo Izzy Stradlin na guitarra), realmente conseguiram estampar versões dignas de medalhões e fizeram muita gente novinha procurar as referências no maior estilo “Rock também é cultura, folks”.

Um dos destaques do registro é "Hair of the Dog", do Nazareth, que conta com a saudosa voz do Axl Rose personalizando a versão e levando a marca hard rock da banda para uma nova geração de fãs. Talvez a única bola fora dos caras tenha sido a não realização de uma turnê para o álbum já que na época alguns membros já trabalhavam em projetos paralelos. Ah, sim, e também  a “homenagem” ao assassino Charles Manson, morto recentemente, ao usarem "Look at Your Game, Girl" como faixa oculta, recebendo assim críticas ferrenhas da mídia e da população americana.


Por título de curiosidade, o álbum teria levado o nome de 'The Spaghetti Incident?' por conta de um episódio jurídico quando o ex-baterista do grupo, Steven Adler, processou seus ex-companheiros por atribuir ao Guns a culpa por seu vício em crack. Na ocasião, os membros do grupo, sentados juntos, atiraram em Adler um prato de macarrão fazendo referência, segundo Duff, a um dia quando a banda estava em Chicago em 1989 e Adler resolveu esconder a droga atrás de um prato de espaguete na geladeira.

Seja lá qual tenha sido o “pecado” do disco gravado entre 1992 e 1993, último antes do longo hiato do Guns, o trabalho produzido por Mike Clink apresenta, além de "Hair of the Dog", nove canções punk dos Damned, UK Subs, New York Dolls, The Stooges, The Dead Boys, Misfits, The Professionals, Johnny ThundersFear. A surpresa vai para o doo-wop, bem sessentista, dos Skyliners e inclui um medley do glorioso glam rock do T-Rex (Buick Makane) e, pra completar, uma revisitada com "Big Dumb Sex", do Soundgarden. Sem contar com a faixa bônus de "Look at Your Game, Girl", claro.


Apesar de uma fatura menor em relação aos outros discos, eles venderam cerca de 190 mil cópias na primeira semana, atingindo a quarta posição na Billboard. Estratégia para conseguirem manter o nome no auge já que estavam entrando em split up? Talvez. Afinal de contas, como disse o crítico Jonathan Gold, da Rolling Stone, em 1993, o próprio U2 apelou para a estratégia com o 'Rattle and Hum' quando a autenticidade deles tinha se tornado 'suspeita', nas palavras de Gold. Depois disso, lançaram 'Achtung Baby' que também dividiu opiniões.

Bom, esquecendo o preconceito às covers, podemos dizer que este quinto álbum de estúdio marca o fim da clássica era do Guns N'Roses e ainda assim mostra o vigor (principalmente vocal) de Axl. Podemos cravar aqui, com certeza, que 'The Spaghetti Incident?' é um divisor de águas na carreira da banda.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: PEARL JAM (BINAURAL)

Foto: Pearl Jam / Binaural


Por Rafael Rodrigues

Era o ano dois mil. Ficava para trás a década de noventa. O grunge já era passado, e das grandes bandas do movimento algumas poucas se mantinham na ativa. Mas lá estava o Pearl Jam. A banda vivia seu pior momento, contribuído pela própria posição de reclusão adotada, e também pela tragédia em Roskilde, na Dinamarca, onde 9 fãs morreram esmagados em seu show. Neste mesmo período foi lançado um dos discos mais controversos da banda, Binaural, disputando o posto com o já contestado No Code, de 1996.


Binaural tinha tudo para ser um disco esquecido pelos fãs - considerando a falta de hits no álbum, assim como a fase experimental que eles se encontravam - iniciada em seu terceiro disco, Vitalogy (1994). Mas não foi o que aconteceu. É chover no molhado explicar nesse texto que os fãs de Pearl Jam não são como os de outras bandas. É curioso, e até difícil de entender, como uma banda pode ver sua legião de seguidores aumentar num momento de desaparecimento da mídia. 


Com exceção do single "Do the evolution", do ótimo antecessor Yield, eles não lançavam um vídeo clipe desde seu álbum debutante, Ten (1991). Foi uma época estranha - com o sumiço da MTV e o rompimento com o maior expoente organizador de shows no seu país, a Ticketmaster. Só que nada disso esfriou o amor dos fãs pela banda. Binaural veio para fincar o Pearl Jam como uma banda atemporal, assim como os Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras. Por que afirmar isso? Porque foi ali que a banda foi testada a ferro e fogo; firmando mais ainda sua postura, seus ideais e suas convicções. Para muitos o Pearl Jam naquela altura já tinha dado o que deveria. 


Mas o que ninguém esperava, era que algo inusitado recolocaria a Pearl Jam em vias mais populares. Em 1998, na disponibilização anual de singles que a banda faz para seu fã clube oficial, os caras lançaram os hits retrôs "Last Kiss" e "Soldier of Love". Essas músicas foram exaustivamente tocadas nas rádios, o que aguçou um público mais jovem a conhecer a história do grupo - provocando assim a redescoberta do Pearl Jam para uma nova geração. Além disso, era o primeiro disco gravado com Matt Cameron na bateria. 


Para esses novos fãs, Binaural foi recebido com muito entusiasmo, pois era o primeiro material inédito lançado pós-fase "Last Kiss". Na verdade, o disco foi responsável pela renovação etária dos seguidores do grupo. Porém, os fãs mais antigos - e também mais exigentes - receberam o álbum com certa indiferença. Era natural, já que não existia nada do impacto de "Alive", ou até de singles como "Do the Evolution". Mas podemos dizer que há faixas muito boas como "Light Years", "Thin Air", "Nothing as it Seems" e "Grievance", que soavam muito bem aos ouvidos mais apurados - daqueles que vivenciaram a época mais fértil do Pearl Jam. Destacam-se ainda "Of the Girl" e a linda "Parting Ways".


Binaural pode ser considerado um divisor de águas da carreira do Pearl Jam. Talvez se nessa fase estranha a banda tivesse se rendido à pressão da mídia - tentando fazer algo como Ten ou Vs. - poderiam não ter chegado onde estão hoje. Os fãs concordam que essa foi uma fase necessária para amadurecimento, tanto que a banda logo voltou a aparecer na mídia - mesmo que timidamente. 


Na verdade, o grupo chegou ao consenso de que os maiores prejudicados nessa guerra com o mainstream eram os fãs, que sofriam com a limitação de um mercado cada vez mais globalizado. 


Binaural foi o "mal necessário" na hora certa - amado pelos fãs e ignorado secamente pela crítica.

sábado, 25 de outubro de 2014

Discos Odiados Que Amamos: Bruce Dickinson (Balls To Picasso)

Foto: Bruce Dickinson / Balls To Picasso

Por Bruno Eduardo

Revendo qualquer um dos shows do Iron Maiden na turnê de Fear of the Dark, é fácil constatar que Bruce Dickinson já tinha mais do que o suficiente. Ele parecia submerso por seus próprios desejos e obrigações. E por mais que não quisessem admitir, Dickinson e o Maiden precisavam realmente se separar. O ritmo implacável de doze anos ininterruptos - com nove álbuns e centenas de shows - colocou a banda no topo do mundo. Mas - como era esperado - o grupo envergava com a chegada dos anos noventa.


Com o grunge limpando o metal do mapa mainstream, o Iron Maiden passava por uma grave crise de identidade. Havia uma tentativa de ousadia, com riffs simplificados, e um esforço grotesco de se levar a sério. O resumo da proposta veio em dois discos irregulares (No Prayer For The Dying e Fear Of The Dark). A ópera vocal de Bruce já dava lugar às melodias rasgadas de um hard rock ("Holy Smoke", "Be Quick Or Be Dead"), evidenciando assim a vontade de percorrer novas trincheiras. A saída era inevitável. Porém, a separação não foi tão amigável quanto pareceu na época. Nicko McBrain criticou a atitude de Bruce, dizendo que ele abandonou a banda em um momento crucial - o baterista foi o único que se colocou publicamente sobre a saída do Dickinson. 


Balls to Picasso soa muito mais antiquado e sisudo se comparado ao vibrante e divertido Tattooed Millionaire (1989) - disco que ele lançou paralelamente à carreira com o Maiden. Embora não pareça, isso era um bom sinal de que a saída iria fazer sentido. Livre de qualquer modelo pré-estabelecido, e viajando em águas mais rasas, o - na época - ex-vocalista do Iron Maiden queria se levar a sério mostrando que Balls To Picasso não era uma aventura qualquer - como foi o caso do já citado Tattooed Millionaire. O único sucesso do disco foi uma balada divina, de quase 7 minutos, permeada por violões e uma letra quase brega (Tears Of The Dragon). O produtor Keith Olsen disse que Bruce queria fazer algo completamente diferente, e que uma das exigências era não ter nada de heavy metal no disco.


Do ponto de vista estritamente musical, os arranjos de Balls to Picasso são simplórios. No entanto, quase todas as faixas se salvam de uma suposta mediocridade criativa pela pura e brilhante performance vocal de Dickinson - o que fica provado logo na faixa de abertura do álbum, "Cyclops".  


Artisticamente, Balls To Picasso é certamente o disco menos relevante de sua carreira. O sucessor Skunkwors é bizarro mas corajoso, atrevido. Já Balls To Picasso é um disco que se acomoda no talento de Dickinson - a grande virtude é que acerta em cheio. "1000 Points Of Light" é derivado de um Living Colour (com um pitada estranha de funk-metal). "Laughing In The Hiding Bush" é construído por um riff matador - aliás, os riffs de guitarra do álbum são simples e certeiros; já "Sacred Cowboys" é uma reminiscência do hard rock-infundido de Tattooed Millionaire. 


Há vários momentos recriados pelo cantor que poderiam soar fake para um disco de hard rock, mas Dickinson é tão convincente ao longo de todas as canções que quase nunca nos importamos com o estilo abordado. 


De qualquer forma, anos depois ficou claro que Bruce e Iron Maiden precisavam um do outro. Na verdade, o Iron Maiden precisava muito mais. Já que Dickinson tinha acabado de lançar dois de seus melhores álbuns da carreira (Accident Of Birth e Chemical Wedding). Só que nenhum disco soa tão rejuvenescedor para o vocalista quanto Balls to Picasso. Em 2014, o álbum representou uma década de independência de Bruce Dickinson. Embora não tão brilhante quanto qualquer obra da donzela, Balls To Picasso é a golfada de ar fresco de um dos maiores cantores da história.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: BAD RELIGION (INTO THE UNKNOWN)

Foto: Bad Religion / Into The Unknown
Punk progressivo? Into The Unknown é mais um disco odiado que amamos
Por Luciano Cirne

Imagine, fiel leitor(a), que estamos em 1983 na Califórnia, e a cena punk local vive seu auge. Você é integrante de uma banda hardcore cujo (excelente) primeiro disco saiu no ano anterior e foi muito bem aceito no underground. Agora vem a pergunta de um milhão de dólares: o que você planejaria para seu segundo LP? Provavelmente, inúmeras ideias passaram em suas cabeças, mas nada parecido com “vamos mudar radicalmente o som e virar uma banda de rock progressivo”, certo? Pois foi exatamente isso que o Bad Religion fez. 

Into The Unknown é um álbum que carrega uma certa aura de maldito: A banda o detesta  e praticamente não faz menção a ele. Perguntas sobre o disco em entrevistas resultam, na maioria esmagadora das vezes, em respostas do tipo: “Ouça você mesmo e aí você entenderá porque o odiamos tanto”. Os fãs, em sua esmagadora maioria, nem sequer sabem que o álbum existe. Into The Unknown foi tão massacrado na época que só teve uma tiragem de 10.000 cópias, que segundo o guitarrista Brett Gurewitz, foram praticamente todas devolvidas às lojas, e jamais foi relançado em CD - embora versões piratas existam aos montes e não seja difícil baixá-lo na internet. Entretanto, se ouvido com atenção e despido de qualquer preconceito, nota-se que é um trabalho ousado, anos luz à frente de qualquer banda punk daquele tempo e quiçá até mesmo do cenário punk atual.


Causou estranhamento saber que o Bad Religion fez um disco de rock progressivo? Então fique sabendo antes do punk surgir para o mundo, Greg Graffin e Mr. Brett eram fãs de Genesis, Jethro Tull e Cia, e Brett já disse em entrevistas que o nome da sua gravadora Epitaph Records foi inspirado na música “Epitaph” do King Crimson


Ao ouvir Ramones, Bad Brains e testemunhar bandas como o Dead Kennedys, JFA, Circle Jerks, Social Distortion e outras tocando praticamente na esquina de casa, acabaram fisgados pela energia e atitude do punk. “How Could Hell Be Any Worse”, sua bolachinha de estreia, vendeu 12.000 cópias, número expressivo que permitiu a Epitaph crescer e investir em sangue novo, lançando “Peace Thru Vandalism”, do The Vandals. Só que mentes geniais às vezes têm coisas que só mesmo elas conseguem entender: Após ganhar um sintetizador de presente, Greg Graffin, que já sabia tocar teclado muito bem, cismou de fazer um som mais elaborado e voltado para o rock progressivo. Brett, que tinha um gosto musical parecido, embarcou na dele, mas Jay Bentley (baixo) e Pete Finestone (bateria) acharam uma maluquice - não aceitando a ideia e caindo fora quase que imediatamente. Para seus postos, foram recrutados Paul Dedona e Davy Goldman, respectivamente, e que sairiam do Bad Religion pouco tempo depois do lançamento do disco (mais à frente direi o porquê). 


Em 30 de Novembro, “Into The Unknown” vê a luz do dia e pega todos os punks de surpresa, com músicas que ultrapassam sete minutos de duração (a lindíssima “Time And Disregard”, a canção mais longa que já fizeram), longos solos de teclado (“It’s Only Over When...”, “Losing Generation”) e até mesmo alguns flertes com o folk (“Chasing the Wild Goose”, “Billy Gnosis”). A aceitação foi péssima, mas esse nem foi o pior dos males: a turnê de divulgação foi um fracasso retumbante - Brett disse diversas vezes que nunca chegaram a tocar para mais de 12 pagantes -, o que fez com que desistissem de divulgar o material novo após algumas apresentações frustradas e que, ao final da mesma, Paul Dedona e Davy Goldman, desiludidos, resolvessem pedir as contas.


Em 2010, para comemorar os 30 anos de carreira, o Bad Religion lançou um box em edição limitada com todos seus 15 álbuns (até então) em vinil e, para surpresa geral, “Into The Unknown” estava presente em edição remasterizada - o que foi excelente, uma vez que o grande problema da edição original era sua produção paupérrima. Talvez por causa disso, em um show em em Nova York (no mesmo ano), a banda tocou “Billy Gnosis” ao vivo. Foi a primeira e única vez desde 1983 que uma música deste disco foi tocada. Desde então o LP voltou ao esquecimento, apesar de inúmeros abaixo-assinados na internet pedindo uma versão em CD do mesmo. 


É uma pena que pareçam se envergonhar do material, pois se por um lado o disco tem uma sonoridade esquisita, por outro é genial justamente por esse motivo. Afinal, o que é ser punk senão não seguir padrões? 


Assim como aconteceu com os suecos do Refused, cujo disco “The Shape of Punk to Come” também levou um bom tempo para ser assimilado por sua sonoridade, “Into The Unknown” é uma pérola a ser descoberta e que merece uma audição, mesmo que por curiosidade. Quem conseguir se recuperar do choque inicial de ouvir a banda tocando um estilo tão diferente do que a consagrou mundialmente terá uma agradável surpresa.

domingo, 20 de julho de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: RHCP (One Hot Minute)

Foto: RHCP / One Hot Minute
Lançado em 95, One Hot Minute é a fronteira criativa dos Chili Peppers
Por Bruno Eduardo

O álbum Californication - lançado em 1999 - foi o principal responsável por colocar o Red Hot Chili Peppers no topo do mainstream mundial. O disco vendeu 35 milhões de cópias, rendeu vários prêmios e fez de Anthony Kiedis um popstar teen - com cabelo loiro, cortado estilo chanel e substituindo as meias na genitália pelos ternos de linha. Bom, como nem tudo são flores, o disco deixou algumas heranças malditas e incuráveis. Uma delas, por exemplo, é o misticismo ao redor de John Frusciante. Tal fascinação dos fãs é justificável. Afinal, Frusciante participou dos discos mais bem sucedidos dos Chili Peppers (Blood Sugar Sex Magik e Californication) e sempre entrou no grupo quando as coisas pareciam andar mal das pernas. Só que é válido lembrar também, que ele fez parte da fase de declínio criativo do grupo. Seus solos econômicos, riffs simplórios e melodias curtas se encaixam perfeitamente no modelo descartável - e apropriado - que o mercado musical consome.


Entre duas fases opostas - a de banda mais quente do planeta e a de banda mais água com açúcar do universo - se encontra um dos discos mais legais e estranhos que eles poderiam cometer um dia: One Hot Minute


Após conhecer o sucesso em 1991, Frusciante não segurou a onda e abandonou o grupo no início da turnê de Blood Sugar - que perdurou por dois anos até que eles resolvessem gravar de novo. Por sugestão de Chad Smith, os Chili Peppers contrataram Dave Navarro do Jane's Addiction para a vaga e, como era de se esperar, Navarro mudou bruscamente a sonoridade da banda. Mesmo discordando de alguns fãs que consideram One Hot Minute o disco mais pesado deles (o mais pesado é Mother's Milk), posso dizer que ele se aproxima - e muito - do título de "disco heavy metal" que Frusciante se recusava tocar nos shows. "Eu não toco essas coisas heavy metal que o Navarro fez", diria numa entrevista em 1999. Talvez o que incomodasse mais Fusciante, era o fato do disco se escorar fundamentalmente nas inserções guitarrísticas de Navarro - seja no peso de "Coffee Shop" ou nas frases suingadas de "Walkabout" - e na consistência sonora das faixas - que oscilam pouco, em comparação aos outros discos da banda. 


Para dar tons mais amargos ao período, Anthony Kiedis e a heroína viviam uma relação complicada. "Minha tendência para a dependência está me ofendendo", canta no primeiro verso de "Warped" - que abre o disco. Embora parecesse algo impossível, o desempenho do vocalista não foi afetado pelo dificultoso processo de produção deste álbum. Não seria exagero afirmar que aqui se encontram algumas de suas melhores interpretações - ouça a funkeada "Aeroplane", ou o tributo a Kurt Cobain, "Tearjeker". E o que dizer da quase acústica "My Friends", hit belíssimo do disco, que também faz parte de uma lista de canções desprezadas pela banda e até mesmo pelos fãs.


Mesmo com todos os percalços, One Hot Minute pode ser considerado um improviso dentro da discografia dos Chili Peppers. Ele soa como um ato instintivo. Um resultado espiritual de uma briga interna contra demônios, vaidade, obsessão e ganância. Concordo, só inspiração não vende disco, e eles também não foram capazes de produzir um grande sucesso nessa época. 


Além de ser considerado um fracasso comercial, o disco é praticamente ignorado pelos fãs. O fato do RCHP não tocar as músicas do álbum nos shows não surpreende, já que a banda se tornou biotipo de um mercado auto sustentável, protegida por marcas e envolvida em rótulos castradores - é, os Chili Peppers envelheceram e se acovardaram. 


One Hot Minute é talvez o último ato de coragem e inconsequência artística desta banda - e por isso vale cada segundo de audição.

domingo, 13 de julho de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: METALLICA (ST. ANGER)

Foto: Metallica / St. Anger

Por Ricardo CachorrãoFlávio


AME-O OU DEIXE-O

O que será que acontece com St. Anger, o álbum que se ama odiar de um dos pilares do thrash metal?

Acredito que precisamos voltar no tempo, e, daí, começar a entender a situação! Aqueles quatro moleques que assombraram o mundo a partir de 1981, com riffs cortantes, viscerais, vocais rasgados e velocidade acima da média, cresceram, amadureceram, ficaram multimilionários e se tornaram, de fato, a maior banda de rock do mundo por um determinado tempo! Nem Rolling Stones, nem U2, nem ninguém mais garantia tanta vendagem de discos e shows na áurea fase do ‘Black Album’, como o Metallica. Estamos falando de 1991.

Com esse primeiro dado, podemos dividir o Metallica (e seu público, principalmente) em “Antes de Black Album” e “Depois de Black Album”.

Os fãs originais, os que acompanhavam James, Lars, Kirk e Cliff Burton (depois Jason Newsted) desde os bons tempos de “Seek & Destroy”, “No Remorse” e “Metal Militia”, já haviam começado a torcer o nariz com “... and Justice For All”, e suas faixas gigantes, contando, ainda, com a semi-baladaOne” (não que isso fosse novidade, já em Ride the Ligtning, tínhamos a até hoje ovacionada, e bela, “Fade to Black”. Mas fã adora reclamar e se achar ‘dono’ da porra toda). E com “Black Album” a coisa ficou mais séria! Se tínhamos uma porrada do quilate de “Sad But True”, no mesmo disco era possível encontrar “The Unforgiven” e “Nothing Else Matters”!!!! E isso era inadmissível pro cabeludo rebeldinho que acompanhava a banda desde os primórdios! Tocar em rádio, MTV, virar arroz de festa, é crime inafiançável e imperdoável! Pronto, o Metallica era a banda traidora que se deve odiar acima de todas as outras coisas!

Nada disso pareceu ter abalado os caras, que ficaram ainda mais ricos, mais loucos e com muito mais fãs, diferentes dos sujinhos antigos, é verdade, esses mais cheirosos e bem nascidos! E a banda parece ter gostado de ficar em evidência, grava dois discos ao mesmo tempo e os lança um seguidinho do outro: Load e Reload. Se existia alguma esperança dos antigos de ter a velha banda de volta, morreu de vez! E os novos fãs, aumentaram ainda mais! Discos que nem são ruins, tem muito barulho (bem tocado) nas faixas obscuras, mas o que fica mesmo na história são os quilos de hits radiofônicos.

Tudo parecendo ir de vento e popa, dinheiro entrando pra todo lado, a loucura aumentando e a merda começando a feder: James se afunda na bebida, Jason se cansa de ser o empregadinho mal tratado e puxa o carro e Lars vai mexer em vespeiro, arruma briga com o Napster! Banda em crise geral, com muitos apostando no fim! Tudo isso pode ser visto em detalhes no documentário “Some Kind of Monster”, que eu recomendo!

No meio do furacão, com James numa clínica de reabilitação, testes para novo baixista, e processo correndo solto com referência ao compartilhamento de arquivos na internet, a banda decide começar trabalhar num novo álbum, com o produtor Bob Rock cuidando do baixo enquanto não encontram alguém.

O fato agora é, enquanto banda de rock, já alcançaram tudo o que podiam! Chegaram ao topo, discos de ouro, de platina, de diamante, turnês gigantescas, estrutura monstruosa e milhões e mais milhões de dólares nas contas de cada um, que tal agora fazer o que gostam? E aí chega o que muitos chamam de “volta às raízes”! É onde entra meu objeto de estudo, “St. Anger”, o álbum que se ama odiar!

Opa, mas, peraí! Se os fãs antigos viraram a cara por causa do som mais ‘soft’, e o público novo (e muito maior), existe justamente por causa disso, como explicar essa mudança? Mas, chegamos num ponto em que, quem disse que o Metallica precisa explicar alguma coisa?

Indo ao que interessa, James volta recuperado, e mais raivoso que nunca! “St. Anger” é isso mesmo, raiva, em estado bruto! Juntando-se a Lars, Kirk e Bob Rock, despejaram um punhado de canções cheias de rancor e com violência que não era sentida no som da banda há tempos!

(O baixista Robert Trujillo acabou contratado após a gravação do álbum, e chegou a participar de todo o DVD Bônus encartado no CD, com a banda numa garagem tocando todo o novo álbum, sacada genial).

A dita ‘volta às raízes’ mencionada por muitos, na verdade, foi bem mais que isso, existiu um olho da banda, e do produtor, no futuro, o som não é aquele thrash das antigas, as guitarras são mais sujas, tem forte pegada hardcore, influência assumida da banda desde os primórdios, mas também mostrando um “que” de nu-metal, em evidência na época, talvez visando a molecada mais nova, afinal, renovar e ampliar o público sempre é bom, e faz bem pros bolsos.

A porradaria tem início com a visceral “Frantic” e o que vem a seguir pode desagradar a maioria, mas é um disco que me faz a cabeça, sem frescuras, curto e grosso, porrada do início ao fim. Sim, concordo com quem diz que a bateria de Lars parece um conjunto de panelas sendo socadas e poderia ter um som melhor, mas, no geral, a crueza desse álbum é algo que deixou o tiozinho aqui de boca aberta. Valeu esperar seis anos após “Reload”, e mais ainda imaginar que “St. Anger” foi um excelente ensaio do que viria a ser “Death Magnetic”, o álbum posterior.